VOL.I NºI2 2023
MIRADA
MIRADA
xD
ssa EXPEDIENTE
MIRADA
LAUDELINAS
Volume I. Número 12.2023
ISSN 2675-6803
Mirada
Recife - Pernambuco
EDITORA CHEFE
Taciana Oliveira
DESIGNER
Taciana Oliveira
CAPA
Taciana Oliveira
(intervenção digital na foto de Edgar Garrido/Reuters)
FOTOS
Naufrágio na Itália- Reprodução
Glória Maria - Reprodução
AGRADECIMENTOS
João Gomes da Silva - Revista Vida Secreta
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ÍNDICE
O5 Indíce 50 De Atlântica Cor | Katiuscia Carvalho |
- Lisa Alves
07 Aprensentação
09 'Stamos em pleno Mar 54 Talvez o milagre esteja mesmo aí
Eee TiAs so - Maria João Cantinho
un Águas - Deborah Dornellas 61 Das vulvas que nascem as poetas
- Renata Pimentel
15 Estrangeira desde que nasci
- Thays Albuquerque 64 Bomba D'água Coração -. Argentina Castro
16 O que os olhos (não) podem ver? 68 4 arqueologia onírico-poético-homoerótica
- Thays Albuquerque no jogo performático em Lisa Alves
18 qué los ojos (no) pueden ver? - Alexandra Vieira de Almeida
a nodes Luguerane 78 Apurado do dia - Germana Acioly
21 "Viúvas de Sal" - Cinthia Kriemler 83 Juliana Meira
25 Mulheres transexuais e travestis
86 Latinoamericana - Amanda Vital
sobreviventes: onde estão as trans
As 88 Uma brevíssima exposição sobre a
em Sorocaba? - Thara Wells Corrêa
multiplicidade da poesia contemporânea
35 Palavras de Silêncio
escrita por mulheres no Brasil
- Adriana Minervina da Silva
- Adriane Garcia
40 Luta Cruz: A Revolução dos Pelos
TI9 Poemas do livro "A bandeja de Salomé"
- Iaranda Barbosa
APRESENTAÇÃO
Hoje festejamos a décima segunda edição da nossa revista.
Nesta data reafirmamos nosso compromisso de nos mantermos
firmes e fortes diante daquilo que não nos contempla. E como
tão bem cantou a inesquecível Elza Soares*: O meu país é o
meu lugar de fala.
Nesta edição de 08 de março, contamos com a participação de
dezesseis mulheres. Na pauta: poemas, crônicas, resenhas,
contos, ensaios e muito mais.
A Revista Laudelinas tem na sua gênese o fomento das artes, o
diálogo sobre gênero e cidadania, e sobretudo a ressignificação
do afeto (aqui cabe a tal da sororidade, lembram?).
A professora e escritora americana bell hooks já alertava que o
amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de
transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que
dominam nossa cultura. |
“Por isso estamos sempre alertas. Não cabe uma existência onde
o fazer artístico justifica a omissão e a indiferença.
Avante, Laudelinas!
Taciana Oliveira,
editora das revistas Laudelinas e Mirada
*Álbum "Deus é Mulher" (2018)
“STAMOS EM PLENO MAR| DEBORAH DORNELLAS
há sempre barcos
a deriva no mare não nostrum
: botes, chatas, catamarás
lotados de vozes e corpos
que tentam travessias desde África e Ásia
até as costas do continente com nome de deusa
(que envelhece
há séculos sem se dar conta)
seus ocupantes, exaustos de acordar
com o sol e dormir sob as estrelas
úmidos famintos ondulantes,
ainda sonham
e esperam manhãs
(com suas crianças a correr
vivas
pela terra nova)
7. *
é a humanidade
a mover-se e desaguar sem vida
numa praia estranha
do lado de lá
a humanidade inteira
desterrada ou submersa
nas costas de cada um de nós
ÁGUAS | DEBORAH DORNELLAS
não quero ser lago
ou lagoa
antes nascente
FO
riacho
regato
ribeirão
córrego
fonte
correnteza
queda d'água
antes mar-oceano
mãe maré
ondas vagas
na areia móvel
7 4: *
escolho o movimento
e que não parem as águas
e não morram os peixes
e os humanos
na mesma rede
água parada apodrece
Deborah Dornellas é escritora, jornalista e artista visual.
Mestra em História (UnB - DF) e pós-graduada em Formação
de Escritores (ISE Vera Cruz - SP). Integra o Coletivo Literário
Martelinho de Ouro, de São Paulo, o Mulherio das Letras e o
Clube do Conto da Paraíba. Tem contos, poemas e ilustrações
publicados em diversas revistas literárias, sites e blogs de
literatura. Em 2012, publicou Triz (In House), reunião de
poemas. POR CIMA DO MAR (Patuá, 2018), seu romance de
estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019 e
venceu o Prêmio Literário Casa de las Américas 2019, na
categoria "Literatura Brasileira”. Seu próximo livro, uma
coletânea de contos, está em fase de edição. Vive atualmente
em João Pessoa-PB.
» : *
Tete
ESTRANGEIRA DESDE QUE NASCI | THAYS ALBUQUERQUE
de onde eu venho”
qual o ponto de partida?
um traço numa cartografia d'áfrica?
um pranto numa nau sombria?
uma cor vermelha brasílica”
há um caleidoscópio de travessias
sou naturalmente estrangeira
inúmeros espaços me habitam
me oferecem ora descanso ora conflitos
sou de todos e de nenhum
novos territórios e tempos me buscam
por ser atlântica, sigo o ritmo das ondas
à deriva, creio no poder dos ventos
me entrego à encruzilhada
o futuro me olha com desejo
toda terra é minha casa
e o mei Lugar no mundo é negro
sem saber de onde ou de quando, estou aqui.
7.
O QUE OS OLHOS (NÃO) PODEM VER?| THAYS ALBUQUERQUE
você já pensou em voar?
já sonhou voando?
acho que boiar de braços abertos
escutando somente
os cantares do mar
é uma forma de voar
sei lá, os elementos se misturam
como a faísca
que se desprende da fogueira
livre, ao vento
é fogo ou ar”
talvez, por isso,
a palavra flutuar
pode referir-se
tanto à água quanto ao ar
eu sei, são muitos devaneios
7.
tenho criado chaves caleidoscópicas
para desvendar
o que está distante,
muito além do que,
objetivamente,
meu olhos podem ver
você também faz isso”
;QUÉ LOS OJOS (NO) PUEDEN VER2?| THAYS ALBUQUERQUE
é VOS ya pensaste en volar?
éya sofiaste volando?
creo que flotar de brazos abiertos
escuchando solamente
Los cantares de la mar
es una forma de volar
qué sé yo, Los elementos se mezclan
como una chispa
que se desprende de la hoguera
libre, al viento
ées fuego o aire?
quizá, por eso,
la palabra flotar
puede referirse
tanto al agua cuanto al aire
lo sé, son muchos devaneos
o.
estoy creando llaves caleidoscópicas
para desvendar
lo que está distante,
más allá de Lo que,
objetivamente,
mis ojos pueden ver
éVOS también hacés eso”
Thays Albuquerque - Poeta, negra e feminista. Nasceu em Recife, em 1986, e vive no
trânsito entre Pernambuco e Paraíba desde 2011, já que trabalha como professora de
Literaturas Hispânicas na Liniversidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande.
Em 2020, concluiu o Doutorado em Letras, Teoria da Literatura, na Liniversidade
Federal de Pernambuco. Em 2022, publicou o livro “o corpo e caleidoscópio”, pela
editora Castanha Mecânica. Integra o Ariel Coletivo Literário, é uma das
articuladoras do Podcast Tramando e do projeto As Poetas do Pajeii. Há anos articula
a palavra com a imagem em produções de vídeo-poemas. Entende a Literatura de
forma plural, como manifestação cultural cultivada nos mais diferentes espaços e
por todo tipo de gente, e vivencia a poesia como uma postura diante da vida.
Ethays.albugquerque.tk
TRECHO DO ROMANCE VIÚVAS DE SAL | CINTHIA KRIEMLER
(São Paulo, Editora Patuá, 2022)
cinthia kriemler
viúvas de sal
Sebastiana anda devagar pelas ruas que conhece tão bem. Não sente saudade. Não há
como sentir saudade dos seis ou dez caralhos entrando na sua buceta e na sua boca a
noite inteira. Sujos de mijo, mal se aguentando em ereções ridículas. Ninguém tem
saudade de trepar arranhando as costas em paredes sujas. De fingir vinte vezes o gozo.
De pensar que alguma hora uma camisinha furada pode trazer a doença que não tem
cura. Ela, agora, é dona de uma outra vida. Desde que se escondeu num beco perto do
cais para fugir de um cliente violento. Drogada, surrada, sangrando pela boca. Mas se
recuperou. E decidiu que não iria mais se prostituir. As amigas riram. Ela mesma
duvidou. O corpo era o que lhe restava. Quando ouviu falar da mulher de Porto do
Xaréu que queria fundar uma cooperativa só com viúvas de pescadores, ficou curiosa.
Não era necessário experiência. Seguiu para lá com uma mala de poucas roupas. Depois
que Tonha explicou o que era uma cooperativa, teve certeza de que o seu Lugar era ao
lado daquela mulher estranha, forte. Quando o resto das suas coisas chegou, ela já
estava morando na casa da pescadora Josefa. Longe do sexo obrigado e da violência. Lá,
havia comida na mesa. Simples e pouca. Mas comida sem custo de porra e de sangue.
Há outra memória insistindo. De uma mulher desabando na calçada suja. Binta. Que a
fez lembrar de si mesma, e de tantas outras. Mulheres no fim de suas forças. Vítimas da
derrota. Da impotência. Dos caminhos de fuga esgotados. No colo da mulher, uma
menina se debatendo. Quando Sebastiana se agachou, viu que a mulher ainda
respirava. Era um sopro fraco. Lim estertor. Mas ninguém ali ia morrer. Porque os olhos
da menina que chorava e chamava pela mãe imploravam com uma urgência comovente.
Havia tanto abandono naquele corpo pequeno que soluçava de medo. Sebastiana
gritou. Pediu ajuda. Ela sabia que num instante as prostitutas e as travestis correriam
até elas, sentinelas de um trágico teatro de sombras.
Mais tarde, escutou do médico o que já sabia. A mulher que caiu na rua tinha
desmaiado de fome. Sebastiana sabe como é a fome. A degradação, a fraqueza, o
corpo trêmulo. Lembrou do ma rido morto por bala perdida. Briga no cais.
Contrabando. Disseram isso dele. Ele que só tinha voltado para buscar uma rede no
barco. Atingido mas costas pela polícia. Ela se revoltou. Problema dela. A
investigação deu em nada. Mentira. Deu em desgraça. Sebastiana sem sustento, sem
indenização, sem alimento para as três bocas que pariu uma atrás da outra.
Desesperada. Cansada. De viver da caridade das igrejas, de mendigar nos sinais e na
porta de bares e restaurantes. De tentar tomar conta de carros nos estacionamentos e
ser expulsa pelos bandos que dominavam os pontos. De trabalhar como diarista, até
começar a quebrar aparelhos, louças e bibelôs com as mãos pesadas e ásperas pelos
calos. De perder empregos para mulheres mais jovens. Depois da desistência e do
desespero, sobrou o corpo como moeda de troca. E a exaustão de se revezar entre as
noites de sexo incessante e os dias de mãe. Até que não so brou nem pão. Na
manhã em que deixou as crianças num abrigo prometeu que voltava à noite. Não foi
capaz. Naquela madrugada, apanhou de um cliente. Somente muito tempo depois
recuperou os filhos. Dois deles. A menina, nunca mais viu. Foi adotada. Por isso ela
se reconheceu ma mulher de sotaque esquisito que acordou no hospital
perguntando pela filha: Onde está Mariama?
Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de O
sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020). Tudo que morde pede socorro
(Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres Loucas (Poesia, 2018); Todos
os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) — finalista do
Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa
(Contos, 2015) — semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros
(Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia
de contos Novena para pecar em paz a convite da Editora Penalux, em 2017.
Tem textos e poemas publicados em diversas antologias e em revistas
Literárias. O romance Viúvas de Sal (Editora Patuá, 2023) está disponível para
pré-venda no site da editora.
MULHERES TRANSEXUAIS E TRAVESTIS
SOBREVIVENTES: ONDE ESTÃO
AS TRANS EM SOROCABA?
Thara Wells Corrêa!
Realidade...
Que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, ninguém
mais duvida. Os dados demonstrados no Dossiê/2022 da Associação Nacional
de Travestis e Transexuais/ANTRA? comprovam que este segue incansável no
projeto de marginalização e extermínio das pessoas trans, seguidos da
omissão “conveniente” de um Estado (neste momento, considerado por
mim, ultraconservador).
Mesmo com o altíssimo índice de assassinatos de pessoas trans,
principalmente, de mulheres transexuais e de travestis, as políticas públicas
direcionadas a esta população são insuficientes. Lembrando que, as políticas
públicas existentes foram criadas em resposta à incansável luta dos
movimentos sociais ligados às transgeneridades e travestilidades.
Onde estas as mulheres trans e travestis?
Estudos realizados pela ANTRA? (Associação Nacional de Travestis e
Transexuais) nos mostram que as mulheres transexuais/travestis são expulsas
do convívio familiar em média, aos 13 anos de idade, levando-as a viverem
'Mulher Trans, (Trans)Feminista, (Trans)Ativista, Militante pelos Direitos Humanos, Bacharela em
Serviço Social, Mestranda do Programa Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana, Universidade
Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. E-mail: thara.wells(Dufscar.estudante.com.br; Presidenta da
Associação de Transgênero de Sorocaba- ATS; Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da
Mulher de Sorocaba (2018-2022).
2Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras
de 2021- ANTRA-Associação Nacional de Travestis e Transexuais .Disponível
em: https://antrabrasil.files.wordpress.com/2022/01/dossieantra2022-web.pdf/.
Acesso em 01. Jun.2022.
3 90% da População Trans no Brasil tem a Prostituição como Fonte de Renda. Disponível em:
https://edicaodobrasil.com.br/2021/05/28/90-da-populacao-trans-no-brasil-tem-prostituicao-como-fonte-de-
renda/ Acesso em Jan.2023.
cercadas de muitas formas de violências, tornando-as precocemente
adultas/responsáveis por si. Sem acesso à educação, sem apoio familiar, sem
oportunidades de emprego formal — uma vez que não evadem, e sim, são
expulsas das escolas por serem forçadas a acreditar que ali não é seu lugar,
tendo como consequência à falta de capacitação profissional, corroborando
com a estatística de que mais de 90% dessas pessoas têm na prostituição
como o único meio de sobrevivência.
“Ter na prostituição a única alternativa de renda não é garantia de
sobrevivência, nem de renda. Estar em pé em uma esquina toda
produzida, não garante o pão na mesa!” Por Thara Wells.
A jornada como profissional do sexo para uma mulher trans/travesti é
curta devido a toda depreciação física e psicológica que orbita neste universo.
Após os trinta anos, estas pessoas já são consideradas velhas, e não mais
desejáveis para os olhares dos clientes que as procuram, sendo obrigadas a
disputar o mesmo espaço com as mais novas. Ainda nesta direção, vemos que
as pouquíssimas mulheres transexuais e as travestis, que conseguem alcançar
a terceira idade, além de solitárias, são esquecidas pelas famílias, pela
comunidade LGBT+, além de abandonadas pela sociedade e invisibilizadas
pelo Estado, que não garante um envelhecer com direitos, respeito e
dignidade. Em alguns casos de profundo abandono, como estratégia de
sobrevivência, algumas “(dês)transicionam”, ou seja, voltam para o “armário”,
vivendo com gays afeminados, renunciando sua identidade por acreditarem
que viverão com menos preconceito; ou então, transformam-se em cafetinas,
transformando seus lares em “pensionatos trans”, abrigando e acolhendo
outras trans mais jovens, ou mais vulneráveis — em alguns casos lamentáveis,
com muita exploração e maus tratos, cobrando altos valores de diárias (com
direito a uma refeição, e um lugar para dormir); outras, procuram inserção no
mercado formal de trabalho, buscando capacitação em cursos
profissionalizantes, num movimento desesperado entre o envelhecer, e o
continuar existindo.
Nada é garantia de êxito. Depende de como será o olhar da sociedade
para estes corpos (siliconados ou não); para estas trabalhadoras, para estas
cidadãs.
Enquanto co-fundadora e presidenta da Associação de Transgênero de
Sorocaba- ATS presencio, diariamente, a extrema vulnerabilidade em que
vivem, suas tristezas, lutas, fraquezas, ansiedades, solidão, abandono, e sua
fé!
Mas onde estão as Trans?
Enquanto pesquisadora trans, acessando alguns lugares (considerados
pela sociedade cisheteronormativa) de privilégio, e colecionado o “primeiro
lugar” em muitos deles, frequentemente algumas pessoas cisgênero (aquelas
que estão em conformidade com o gênero atribuído ao nascimento, e com toda
sua construção social) me questionam: onde estão as outras “iguais a
você”?
Pensem! Se pararmos pra analisar que, o Brasil, sendo o país que mais
mata pessoas trans no mundo, é um dos países que mais consome
pornografias com pessoas trans, segundo a revista Hibrida”, a partir da
publicação do relatório sobre consumo de pornografias em 20 países que
mais a consomem, publicizado pelo site RedTube,“[o0] Brasil, que nunca fica
de fora dessa lista, demonstrou mais uma vez em 2019 o paradoxo de viver
entre o desejo e o ódio em relação às travestis e transexuais”, uma vez que
desde 2016, o Brasil é “o país que mais consome pornografia com pessoas
trans [...]'. Desde então, estivemos sempre presentes na lista e permanecemos
na liderança de outros sites internacionais como o maior público para esses
vídeos. Assim, é emergencial refletir sobre essa relação de fetiche e ódio às
pessoas trans, principalmente às mulheres transexuais e às travestis, podendo
hipoteticamente dizer, que toda a vida das mulheres transexuais e travestis
estão marcadas por esta relação, desde a mais tenra idade, em sua maioria,
4 Paradoxo do Brasil no Consumo de Pornografia e Assassinato Trans. Disponível em:
https://revistahibrida.com.br/2020/05/11/0-paradoxo-do-brasil-no-consumo-de-pornografia-e-assassinatos-
trans/ Acesso em: 15.ags.2021.
sempre submetidas a situações de opressões. É primordial que as
vivências/sobrevivências dessas pessoas e suas histórias de vida sejam
humanizadas, buscando entender as suas especificidades, além do
aprendizado de reconhecer e combater todas as micro agressões -introjetadas
ou não- na nossa cultura, contra as pessoas transgênero, travestis e
transexuais. Citando como exemplo, o uso de maquiagens e outros signos
sociais que identifiquem, ou que estejam relacionados ao feminino (dentro da
construção social do que é “ser mulher”), desconstruindo as falas e as atitudes
associadas às mulheres trans e travestis, reforçando o conceito da “transfobia
recreativa”, embutidas nas situações quando algumas pessoas avistam uma
mulher cisgênero, considerada “maquiada demais”, dizem: “essa mulher está
tão maquiada, que parece “um” Travesti”, ou quando homens cisgênero saem
para brincar no carnaval, vestidos com roupas femininas, de maneira caricata,
fazendo gestos obscenos, se passando por travestis; ou quando alguém usa a
palavra “travestida/o” para apontar uma farsa: “disfarçado de”. Algumas
músicas, por mais inocentes que aparentem, reforçam essa visão recreativa
das identidades trans na nossa sociedade. Como exemplo, citamos uma faixa
cantada por uma dupla sertaneja de grande sucesso no país, na qual contam a
história de um homem “cisgênero” que foi enganado por uma travesti. Em
resposta, a ANTRA? divulgou uma carta aberta, posicionando-se contra a dupla
sertaneja, que após receberem muitos posicionamentos dos movimentos
sociais e ativistas da causa repudiando a atitude, a dupla se justificou, por meio
das suas redes sociais, cometendo ainda mais deslizes, ignorando as
diferenças entre sexualidade (orientação sexual) e identidade de gênero,
justificando com a máxima: “temos até amigos gays”.
* Entenda de Vez o que é Transfobia Recreativa. Disponível em:
https:/Avww terra.com.br/'nos/entenda-de-vez-o-que-e-transfobia-
recreativa a38eb0e7d2eea003487972a7c986df74c7s26k1r.html Acesso em Agosto. 2022.
6 ANTRA. Carta Aberta em resposta a Músca LILI, da Dupla Sertaneja Pedro Mota e
Henrique. Disponível em: <https://portalpopline.com.br/associacao-travestis-pede-
cancelamento-lili-musica-transfobica-sertanejos/> Acesso em: 15. ago.2021.
Mas onde estão as Trans?
Nos anos de 1950, nos Estados Unidos, surgiu um movimento político,
reproduzido ao longo da história contemporânea sob diferentes aspectos e com
multifaces. Naquela década, emergia das “sombras da ignorância” uma ideia
de que a sociedade ocidental da atualidade precisava se organizar para
combater um inimigo, do qual não havia provas concretas da existência ou da
construção de seus planos maléficos. Um verdadeiro “fantasma” a ser
exorcizado. Naquele tempo, o principal fantasma a ser combatido era o
comunismo — ou o que cada pessoa entendia por comunismo. Ao longo da
história, esse mesmo fantasma vem esculpindo a política e o poder ao redor do
mundo, sendo muito presente nos dias atuais. A Ideologia de gênero é um
termo que foi cunhado pela igreja católica no início dos anos 2000, sendo
difundido pelo neopentecostalismo até os dias atuais, compreendendo uma
série de distorções feitas com o intuito de desmoralizar idéias, principalmente
estudos de gênero e feministas, pulverizando esse medo invisível da vitória
dessa ditadura da “ideologia de gênero”, tornando-se um desses exemplos de
pensamentos fantasmagóricos (HAN, 2018), propagados pelas mídias digitais,
pairando em muitos lares desavisados, corroborando para fortalecimento dessa
falácia, alcançando os planos da educação (municipal e estadual) e da temida
destruição da família tradicional (em suas formações falidas pelo próprio
sistema hétero/cis/normativo), além de ter sido uma ferramenta decisiva para o
fortalecimento da extrema Direita no país.
Porque tanto medo das Trans?
Esse pensamento ridículo contribui cada vez mais para a marginalização
dessas pessoas, mantendo-as, cada vez mais, à margem dos seus direitos.
Em 2018, palco das fake news “das mamadeiras de piroca e dos kits Gays”,
foram constatados 420 mortes — por homicídio ou suicídio — de LGBTs”. Longe
* Relatório registra 420 vítimas Fatais de Discriminação contra LGBTs no Brasil em 2018.
Disponível em:https://Awww.brasildefato.com.br/2019/02/08/relatorio-registra-420-vitimas-fatais-
dediscriminacao-contra-lgbts-no-brasil-em-2018/. Acesso em: Agosto.2022.
da intenção de alimentar mais palavras sobre essa falácia, porém marcando
aqui o repúdio sobre essa estratégia da implantação desse pânico moral que a
chamada “ideologia de gênero” acompanha, muitas pesquisas analisaram
como a disseminação das “fake news” pôde alcançar tantos lares mais
temerosos. Esses discursos de ódio — disfarçados, cinicamente de liberdade
de expressão — são um tipo de violência verbal, tendo âncora na “não
aceitação do diferente”, configurando assim, um crime que fere a garantia de
Direitos dos cidadão/as trans.
Ademais, lamentavelmente, nosso país tem muita luta para desatolar
desse momento triste e “lamacento” da nossa história recente; lembrando que
mesmo o estado brasileiros sendo laico, muitos segmentos religiosos, em
nome de um Deus e de uma idéia de doutrina, acabaram estimulando e
construindo uma cultura de violência, de exclusão e de preconceitos contra as
pessoas que “ousarem pensar, agir, e viver”, ou idealizar o contrário imposto.
Tantos retrocessos, não podem, nem devem estar ancorados a um fantasma
social, nem ser celeiro de narrativas como “ir para o céu, ou ir para o inferno”,
nem mesmo servir de justificativa para legitimar a escolha de um
representante, chefe de estado, alinhado em prol da destruição da dignidade e
do respeito às pessoas mais vulneráveis. Isso sim deveria ser considerado
crime hediondo e inafiançável.
A educação sobre gênero e o respeito à diversidade sexual nas escolas
precisa ser uma constante realidade, usados como forma de construir uma
sociedade mais justa e igualitária, e não como forma de destruição,
marginalização, impedindo, assim, o acesso e a permanência das pessoas
trans.
Que todas/es/os possam almejar e ajudar a reconstruir um país onde
todas as famílias, independente das suas cores e formações, tenham como
regra única a garantia do mínimo de dignidade: comida no prato, educação,
trabalho e o direito de ter o Direito de sonhar com o Futuro.
A verdade...
Sabe aonde NÃO estão as trans?
Começaremos respondendo com a dinâmica criada originalmente pelo
Geledés Instituto da Mulher Negra para discutir a existência de toda forma de
preconceito racial no Brasil. Façamos todas/es/os o teste do pescoço, e assim
todas as dúvidas sobre a localização exata e “imóvel” das mulheres trans e
travestis, serão respondidas. E se mesmo assim, ainda não foi possível
localizar, seguiremos orientando a sociedade a girar o pescoço, espiar um
pouquinho a realidade fora da sua redoma dos privilégios, esticando o pescoço,
dentro da vida nua e crua de pessoas trans, e toda sua luta por sobrevivência.
Muitas pessoas cisgênero privilegiadas, em sua maioria, só enxergam um
objeto a ser estudado, alimentando de maneira ultrapassada, as pesquisas
sobre “o que é, o que comem, onde habitam, e como se reproduzem”. Isso
Basta! Somos muito mais que objetos de pesquisas brancas e cisgênero.
Existe uma grande luta, que é renovada diariamente, a cada raiar do sol, para
humazinar, respeitar, incluir e garantir a permanência de pessoas trans em
todos os espaços sociais.
Não podemos mais ter que voltar “algumas casas” para explicar o óbvio,
como o uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero, ou como o
respeito ao uso do nome social, ou a não deslegitimação quando os
documentos já estão retificados.
Quando vir apenas uma de nós, antes de perguntarem “Onde estão as
trans?”, respire, pense, e faça o teste do pescoço. Olhe, mas olhe mesmo!
Não estamos na infância, por que desde o momento em os corpos trans já são
identificados com divergentes da norma da cisgeneridade, e o olhar no espelho
diz que algo ali não se encaixa, a falta de acolhimento familiar se torna
determinante para entendermos como se constroem as estruturas de poder na
sociedade, e a constatação, desde a mais tenra idade, de que vivemos e
somos inseridas/os/es numa estrutura de poder patriarcal. E se mesmo assim,
após todo exposto acima e o teste do pescoço, ainda não for possível
identificar a nossa presença na infância, nas escolas, acessando os Hospitais e
as Unidades Básicas de Saúde, nos cursos profissionalizantes, no Mercado
Formal de trabalho, nos shoppings, nos espaços públicos, nas universidades,
nos Mestrados e Doutorados produzindo conteúdo, sinto em lhes dizer:
Nada saiu do lugar, e a maioria de nós, ainda continua lutando para sair
dessa caverna de preconceitos, exclusão, silenciamentos, esquecimentos,
invisibilidades, opressões, e muita, muita solidão.
Afinal: Onde estão as Trans?
Por Thara Wells.
Thara Wells - Mulher Trans, (Trans)Feminista, (Trans)Ativista, Militante
pelos Direitos Humanos, Bacharela em Serviço Social, Mestranda do
Programa Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana,
Universidade Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. E-mail:
thara.wellsoufscar.estudante.com.br; Presidenta da Associação de
Transgênero de Sorocaba- ATS; Conselheira do Conselho Municipal dos
Direitos da Mulher de Sorocaba (2018-2022).
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IARANDA BARBOSA
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PALAVRAS DE SILÊNCIO| IARANDA BARBOSA
Adriana Minervina da Silva
Com prefácio de Adriano Portela e posfácio de Geórgia Alves,
"Palavras de silêncio”, de Iaranda Barbosa nos apresenta universos
que tocam a nossa fragilidade, nos convidam a revisitar nossas
memórias e crenças já há muito tempo arraigadas em nossas vidas.
Cada história contém em si um mundo de possibilidades em que o
insólito talvez não seja o "inesperado", mas sim a violência "provável",
fruto da hipocrisia nossa de cada dia. Essas narrativas nos convidam a
refletir sobre o real e maravilhoso sentido de conhecer nossas
tradições culturais, parte de quem somos e de como enxergamos o
que nos cerca.
A paisagem do Recife é palco de importantes reflexões que
promovem encontros. Cidade de Maria Valente, da Menina Sem Nome,
de um Holliday que guarda histórias de mistérios que gritam
silenciosamente por justiça. Também da Conde da Boa Vista, da Ponte
do Galo, do Marco Zero onde se unem tradições nossas representadas
em já conhecidos personagens, como o Homem da Meia-Noite, a
Emparedada e a Velhinha da Caxangá, pois a literatura promove
encontros, imagens e o ecoar de vozes, como é possível ler em “O
Gigante”.
Em “Sacerdotisa”, percebemos um misto perfeito de trabalho entre
fé, tradição, religiosidade e sincretismo representados na
personagem Lilith, transgressora desde o nome que carrega. Sua vida
é contada através de intensas quebras temporais e de
deslocamentos que nos fazem questionar realidades: “Inaceitável
Deus querer ser pai. Ele deveria ser mãe, porque cuida da família, não
abandona os filhos, é capaz de dar a vida por eles” (p. 26). Uma
menina com anseios de mudar o mundo e que, assim, consegue
através dos estudos e do cuidado de sua mãe, honrando sua
memória e sua fé. O conto traz em si uma triste história de intolerância
religiosa resolvida após anos. História jamais esquecida, pois quem é
filha de Oyá com Xangô certamente faz soprar ventos de justiça.
“Vida Fácil” toca em um tema muito importante, sobre corpos
dissonantes de nossa sociedade (as pessoas trans ou travestis) e o
lugar socialmente destinado para elas, a condição de
subalternização, o oculto, reservado. Não seriam elas dignas de
serem publicamente amadas? E o direito à vida estaria, de fato,
garantido? É um conto que reflete sobre o destino de alguém que
sofre violência e preconceito, cujo final é infinitamente trágico. Em
“Myosotis”, a imagem da flor se mistura à imagem da morte para
trazer presente o contexto de restrições causadas pela Covid-19, bem
como as milhares de vidas que foram ceifadas em decorrência dessa
Em contos como “Stigmata”, “Femme-Crampon”, “A Musa”,
percebemos a força coletiva dada às mulheres, que agem
curiosamente modificando o destino das histórias. Em “O futuro a
quem pertence?”, conhecemos Rosa e Raquel, antônimas na vida,
unidas por laços que transcendem suas realidades. Esta narrativa
ainda reflete que o julgamento social será sempre pesado quando se
é mulher. Nesse sentido, em “Tempos não verbais” temos um caminho
para vencer esses julgamentos: "Quantas mais deveriam morrer por
dentro e por fora para que percebam que a única saída é se
aquilombar?" (p. 30). A questão de gênero é um tema frequente que
permeia toda a narrativa.
Por tudo isso, "Palavras de silêncio" ecoa em nós, leitores, como
uma prece de que sigamos desvendando seus múltiplos sentidos,
numa leitura atenta, desejante, desafiadora de nossas crenças,
olhares e experiências, por vezes não contadas, mas lidas através da
literatura. Há um mundo a ser descoberto em cada página, há um
fôlego a ser retomado à medida que as narrativas nos alcançam. É
uma obra muito instigante, que quebra nossas certezas e nos
direciona a enxergar por outro ponto de vista. Provocadora como a
literatura de laranda nos é. Deixemo-nos afetar.
Resenha por Adriana Minervina
Adriana Minervina da Silva é graduada em Letras pela
Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, possui mestrado e
doutorado em Teoria da Literatura pelo Programa de Pós-
Graduação em Letras da mesma universidade. Atua como
professora de Língua Portuguesa no Estado de Pernambuco
(Seduc-PE). Tem interesse nas áreas de Literatura Brasileira,
com ênfase nos Estudos Culturais/Colonialidades e na
representação literária de mulheres negras.
a
laranda Barbosa é Doutora em Teoria da Literatura (UFPE),
crítica literária, professora e escritora. Em 2020, publicou a
novela histórica Salomé (Mirada), finalista do prêmio Maria
Firmina dos Reis (2021); em 2021 foi organizadora, curadora e
colaboradora da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada) e da
coletânea Artemísias: vozes de libertação (Mirada), obra
traduzida para o Espanhol em 2022 sob o título de Artemisias:
voces de liberación; em 2022 lançou o livro de contos Palavras
de Silêncio (Mirada), eleito o melhor livro de contos do ano pela
FLIPO — Festa Literária de Ipojuca. Atualmente trabalha como
professora do Departamento de Letras Espanhol da
Universidade Estadual da Paraíba.
CM
Nu.
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ENSAIO | IARANDA BARBOSA
Doçura, sensibilidade, meiguice, delicadeza, beleza, fragilidade. Estariam
estas características relacionadas à mulher negra? Mais ainda: a uma mulher
negra com barba e pelos no peito, nas axilas, nas pernas, na virilha? Ou
seriam suja, violenta, sexual, escrava, exótica os termos mais associados,
devido à herança racista e misógina da qual somos fruto? É ancorada nesta e
em outras problemáticas que a cantora, compositora e ativista afro-chilena
Luta Cruz nos apresenta o Manifiesto antirracista:
Los mismos ojos de mi hermana
Son los mismos ojos de mi madre
Ambas apuntadas por igual
Negras
Sucias
Cimarronas
Violentas
Sexuales
Esclavas
Y pienso
é Tengo tiempo para preguntarme acaso si soy negra cuando me golpean en la calle?
é Cuando me exotizan?
éCuando me preguntan cuanto cobro”
é Cuando quieres tocar mi cabello?
é Cuando crees que no entiendo Lo que me dices?
Y aun así te tolero
Y te acercas a mí para seguir aprovechándote
Disfrutam mucho nuestro silencio
Adoctrinan nuestra identidad
Toman nuestra música y la venden al mejor precio
Siguen creyendo que estamos solos
Y todo lo de afuera estuvo adentro mientras sonaba la voz de mi madre que me
recordaba en diferentes ocasiones
Tienes más oportunidad por ser clara, mulata, negra clara, morena, curiche,
birracial
Y el espejo me gritaba
équieres um Lunar en el rostro?
éLino sexy, como la Marilyn?
Ma rilyn Monroe
La mujer de todas las épocas
Y yo con mi cabello liso y rubio y un maquillaje blanco mirándome al espejo me
preguntaba
éSOy ahora blanca
Os versos de Luta Cruz nos proporcionam uma visão panorâmica de entraves,
dilemas, inquietações, violências e atravessamentos que as mulheres negras
vivenciamos ao longo da vida. Mãe e filha padecendo das mesmas discriminações
devido ao tom de pele mais retinto. A irmã birracializada transitando no limbo:
por um lado, na rua, escura o suficiente para ser bonita ou respeitada, por outro,
em casa, clara demais para se autodenominar negra. Identidade silenciada, cultura
apropriada, corpo invadido. As problemáticas se intercruzam no manifesto e nos
impelem a refletir sobre a encruzilhada na qual se encontram mestiças, retintas e
tantas outras que compõem o colorismo e a multirracialidade latino-americana e
que pouco, ou quase nunca, disfrutam de privilégios e espaços de poder.
Foi em meio a esses conflitos que artista em tela enfrentou contextos de
violência advindos de relacionamentos abusivos compostos por agressões físicas e
psicológicas. De acordo com a própria cantora, os abusos do primeiro
relacionamento causaram perplexidade devido ao fato de que quem a agredia era a
companheira que, apoiada pela mãe, endossava o discurso de exotismo ao expor
Luta Cruz aos amigos e familiares, classificando-a pejorativamente como negra e
peluda. Logo, a homoafetividade não é garantia de blindagem para o preconceito
nem tampouco para a misoginia. Com relação ao segundo relacionamento, agora
heteroafetivo, a afroativista revela que, além de situações semelhantes às
anteriores, nas quais as mulheres da família estavam envolvidas, ela era impedida
de participar de festas e comemorações familiares, devendo, dessa maneira, ficar
reclusa em uma casa vizinha e comer em um prato separado.
É imprescindível ressaltar que precisamos evitar julgamentos e juízos de valor
referente à normalização e à naturalização com a qual Luta Cruz encarou até
determinado momento as atitudes violentas. É importante que compreendamos o
contexto mo qual ela estava inserida e como se deu a construção de sua
personalidade em um país que apenas em 2019 reconheceu o povo negro como povo
tribal afro-chileno e que, também em 2019, foi palco da morte de uma imigrante
haitiana em condições suspeitas de negligência em um hospital público do Chile,
após ser dura e injustamente acusada, pela opinião pública e por órgãos estatais,
de abandonar a filha recém-nascida.
Foram esses ambientes e contextos violentos que reafirmavam ininterruptamente
a negritude e os pelos de Luta Cruz que a fizeram refletir sobre a sua corporalidade,
ancestralidade e sobre o hirsutismo. Reconhecer-se em um corpo que não era do
outro, mas dela mesma. Lim corpo cuja beleza estava composta por características
que ela foi forçada a negar devido aos padrões sociais que a fizeram sofrer ao tentar
se enquadrar nos modelos de feminilidade, entre eles, depilar-se.
A rebeldia, sui generis à artista, insurgiu com força e, juntamente com o
acolhimento de grupos de mulheres, entregou a Luta Cruz a bússola e o mapa que a
direcionaram à consciência de uma negritude localizada num ponto de interseção:
embora o “outro” se sentisse legitimado a agredir, ela estava fortalecida o
suficiente para enfrenta-lo. O agora livre crescimento dos pelos promoveu a
fertilização da negritude, fazendo Luta Cruz se olhar no espelho e encontrar o
próprio valor, enxergar-se mulher, senhora de si, artista, ativista, ser humano. O
despertar da ancestralidade retirou o véu de Ísis, incentivando-a a enfrentar os
agressores. Reconhecer-se negra descortinou o amor aos próprios pelos. Ao mesmo
tempo, a liberdade de mostra-se peluda surgiu com a necessidade de acolher outras
mulheres e fortalecê-las.
A revolução de Luta Cruz se inicia dentro do corpo-negro-peludo-empoderado e
se reflete no rosto feminino com barba e bigode. A voz, a performance e a escrita
seriam, a partir de então, as armas utilizadas para resgatar a cultura, a história e as
narrativas roubadas pela branquitude. A cantora revoluciona ao organizar festivais
com artistas Latino-americanos de maioria afrodescendente e movimenta estruturas
até então desconhecidas para muitas pessoas. Os trabalhos começam a colher frutos
significativos, como vencer o prêmio Queen Awards 2023, na categoria Melhor
Artista Projeção de 2023, promovido pela Chilean Queens Playlist.
Revolucionária, essa mulher peluda nos mostra que o feminismo, ou melhor, o
afrofeminismo na América Latina possui demandas muito específicas e questões
coloniais ainda muito evidentes nas estruturas dos países, haja vista a condição de
objetificação e amimalização vivenciada por Luta Cruz nos referidos
relacionamentos, e, claro, em diversas situações cotidianas. Os mecanismos de
opressão e as tentativas de genocídio dos corpos negros seguem atuantes,
sustentadas por instituições, pelo mito da democracia racial e pelas estratégias de
apagamento da população negra, isso inclui o genocídio lento diário e gradual,
sobretudo, dos mais pobres. Logo, os episódios de violência se fazem presentes nos
ambientes laborais, educacionais, na assistência médica. Ou seja, nos espaços
públicos e privados.
Nas conclusões dessas breves linhas sobre Luta Cruz é importante trazer à ordem
do dia que situações como as experienciadas pela artista infelizmente ainda são
comuns em pleno século XXI. O fato de ser uma mulher jovem, bonita,
inteligente, instruída e com família não impediu, e ainda não impede, que ela
sofresse racismo porque ele está tão presente na estrutura social que a perigosa
naturalização faz com que não o percebamos ou o normalizemos. Trazer histórias
como as da afrofeminista é lançar um salva-vidas para aquelas que, na iminência
de se afogar, consigam colocar o nariz para fora, respirar, chegar à margem e
construir sua própria revolução.
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laranda Barbosa é Doutora em Teoria da Literatura (UFPE),
crítica literária, professora e escritora. Em 2020, publicou a
novela histórica Salomé (Mirada), finalista do prêmio Maria
Firmina dos Reis (2021); em 2021 foi organizadora, curadora e
colaboradora da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada) e da
coletânea Artemísias: vozes de libertação (Mirada), obra
traduzida para o Espanhol em 2022 sob o título de Artemisias:
voces de liberación; em 2022 lançou o livro de contos Palavras
de Silêncio (Mirada), eleito o melhor livro de contos do ano pela
FLIPO — Festa Literária de Ipojuca. Atualmente trabalha como
professora do Departamento de Letras Espanhol da
Universidade Estadual da Paraíba.
o.
DE ATLÂNTICA COR | KATYUSCIA CARVALHO
Lisa Alves
De Atlântica Cor ou da Cor de um Nome Yanomami
“há gente ali,
onde ninguém olha
há o outro do outro
b)
e há o não do não”
(DOS ANTIDISTÓPICOS)
Quem somos quando somos outres? Quem somos se olhamos para o mundo em
outra perspectiva, em posições e vivências diversas e depois voltamos esse olhar-
Viajante para O espelho? Iremos nos reconhecer? A poesia pode provocar esse
olhar deslocado do que acreditávamos que éramos para um lugar-olhar menos
colonizado?A poesia pode quebrar esse espelho viciado?
Emprestar um olho/à primeira terceira pessoa que passa/ Tomá-lo de volta/ e ir se
olhar ao espelho (PERSPECTIVA, pág. 15)
Em “De Atlântica Cor”, Katyuscia Carvalho veste outro corpo.Veste outra
cor.Veste outros nomes. Veste línguas extintas. Veste corpo-água-cor-atlântica.
Desloca o olhar para se enxergar e para nunca mais ser um corpo carregado de
pedraspedrocabralinas.
pa
A poeta nos reescreve essa fala de reexistência e diz que vestir de si é antes se
desvestir desse uniforme de língua cortada, é se desconjuntar dessa subjetividade
colonizada, para desaguar em um território mais plural e conseguir alcançar a
profundidade desse corte onde pode ou não existir esse idioma possível para a
palavra submersa:
Qual a profundidade do corte de uma língua? / E em que idioma isso se pode dizer?(..)
/ Reexistiremos uma fala / para as feridas que puseram em nossas bocas (..) / E não
haverá reza branca em voz alta que suporte/o barulho do mar revolto em nossos
pulmões. (ECO OU CANTO AO CAMPO AGORA MINADO DAS
SUPREMACIAS, pág. 33)
Aqui é poesia de enfrentamento e recusa e não apenas resistência no sentido de
uma força que reage contra a ação de outra força. E o enfrentamento habita cada
verso, habita cada verbo: ferir a pedra, ser mais que cisco, mudar o fogo de lugar,
evadir de cada voz, mostrar todos os dentes.. ou como Katyuscia encerra o poema
Furosidade: fora da fúria, não há salvação.
“(JE se tocaias em frente aos palácios/ Mudando o fogo de lugar e de nome? (DOS
SE'S..., pág. 35)
Este livro é uma reescrita de um corpo coletivo, um corpo colossal, um corpo
impurificável, um corpo contra o sagrado, um corpo com cabelos da cor de um nome
yanomami que quebra todos os espelhos e deságua.
Por Lisa Alves
erre
Katyuscia Carvalho - nasceu no interior de Pernambuco, com as águas
de março de 1977. Graduou-se em Letras. Lecionou intensamente
enquanto viveu no Brasil. Emigrou por amor.
Tem poemas, traduções e ensaios publicados em revistas literárias de um
lado e outro do Atlântico. Participou das antologias Blasfêmeas: mulheres
de palavras, pela Editora Casa Verde; Porremas , pela Mórula Editorial, e
Liberoamericanas, pela Libero Editorial. Seu primeiro livro de poemas,
Vermelho Rupestre, foi publicado em 2015 pela Editora Patuá, que
também está editando o segundo: De Atlântica Cor.
Escreve porque não sabe cantar.
Lisa Alves (Araxá,1981) é escritora e artista visual. Tem textos publicados em
diversas antologias, revistas, jornais e páginas literárias no Brasil e exterior.
Co-dirigiu os curtas Sou Indesejável (2018) e Depois do Sétimo Dia (2020).
Teve trabalhos de videoarte exibidos em festivais no Brasil e no exterior.
É autora de Arame Farpado (2015, Penalux) e Quando tudo for possível
(2022, Mirada).
ee“
TALVEZ O MILAGRE ESTEJA MESMO AÍ
MARIA JOÃO CANTINHO
Talvez o milagre esteja mesmo aí
sem estar, afinal
talvez esteja na asa
rastejando o fio de água
ou no modo como vês o azul nascer
ou talvez só aí
quando a luz irrompe em ti
ou na página,
esse «tanto faz»
Ou talvez o teu olhar,
querendo flutuar
>.“
talvez aí esteja a tua raiz
que não é raiz de coisa nenhuma
talvez esse seja esse o milagre
o teu, o de apenas quereres nadar
e deixares-te levar
como o vento suavíssimo de verão
esse teu gesto
o de querer deixar-se ir.
Em modo de segredo,
uma qualquer loucura desaguando
e indo, indo.
In «Escopro e Luz»
Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, em 1963. Estudou Filosofia na
Universidade Nova de Lisboa, onde defendeu dissertação de
doutoramento. Com diversas publicações científicas em revistas
académicas, é actualmente professora do ensino secundário. Membro
integrado do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Collége
d'Études Juives (Université Sorbonne IV), organizou vários congressos na
área de Filosofia, bem como co-editou diversos livros sobre vários
autores (Celan, Levinas, María Zambrano, Walter Benjamin). Colabora
em diversas revistas de literatura. Publicou 5 livros de ficção (em
Portugal e no Brasil) e quatro livros de poesia, bem como três livros de
ensaio. Foi nomeada como finalista do Prémio Telecom, em 2006, com o
livro “Caligrafia da Solidão” e foi nomeada como uma das ensaístas do
ano com a sua obra “O Anjo Melancólico” pelo Professor Eduardo Prado
Coelho, foi vencedora do Prémio Glória de Sant'anna em 2017, pela sua
obra «Do Ínfimo» e foi galardoada com o Prémio PEN ensaio em 2020,
pelo seu ensaio «Walter Benjamin: Melancolia e Revolução». É Directora
da Revista Caliban. É membro da Direcção do PEN Clube Português e
membro da APCL.
MEU LAMPIÃO NÃO TEM LUZ | THAIS GUIMARÃES
Eu agora vou contar uma história da minha infância que escutei da minha avó no
sertão do Ceará.
Meu avô era da labuta. cabra muito trabalhador. Com o suor do seu esforço,
cuidava de uma fazendinha nas bandas da Paraíba. Era ali que ele vivia com minha avó
Umbelina, minha tia Francisca, com apenas 12 anos e, também. a tia Antônia com seis
meses de nascida.
Eis que recebe a notícia: Lampião estava chegando. Meu avô que já sabia que o
homem não poupava menina-moça em botão, tomou então seus cuidados. Disse pra ela
ganhar mundo. pra correr e se esconder, porque Lampião chegava e gostava de menina-
flor. Tia Francisca correu légua, quando viu uma cisterna aberta foi ali que se jogou.
Minha avó então juntou os poucos dinheiros que tinham. pôs num chifre de boi que
escondeu no paiol. Logo Lampião chegou. Ele e todo seu bando mandaram servir comida.
Minha avó muito aflita fez uma cabidela de Angola. Lampião pediu cabrito. Foi cozido pra
noite inteira. pois ali Lampião pernoitou, ele dentro de casa e seu bando ao relento.
Queria saber da mocinha que deixara as roupas ali. Minha avó disse que estava na casa
de sua madrinha. Lampião queria o dinheiro, então botou tia Antônia. que era ainda
bebezinha, no corte de sua peixeira, tentando negociar. Minha avó implorou, tia Antônia
sangrou um pouco, mas o dinheiro ficou. Ao final de quase dois dias, com a casa revirada.
Lampião juntou seu bando e foram buscar outro canto. botou fogo em tudo que havia na
» . *
terrinha do meu avô.
Nada fez com meus avós. porque eles não eram ricos. De riqueza, tinham Chica e
Antônia com seus olhos de turmalina. Mas Francisca foi quem penou. No fundo da
cisterna. onde ela se escondera, a menina já comia terra. escavada com as próprias
unhas. Foi achada em sete dias, muito fraca e combalida. Por mais sete emudeceu.
Até que meu avô decidiu que era hora de se mudar, escolheu a Vila Estrada. bem
perto de Iguatu. pras bandas do Orós, no sertão do Ceará. Mas Francisca pegou
loucura. da qual nunca se livrou.
Foi lá na Vila Estrada. onde brinquei na infância, busquei água em açude. puxei
mula e jumento que aprendi a me defender. Hoje, a criança que fui, no sertão do
Ceará. ainda guarda as memórias das noites ao pé do fogão. em cozinha iluminada por
luz de lampiões. da saga de tia Francisca, que não escapou do escuro de um outro
Lampião - homem cantado em versos por sua valentia. que fez muita festa nas vilas.
saqueou ricos, distribuiu parco dinheiro e vendeu sua proteção, assim como as milícias
modernas.
Foi perverso em demasia, daqueles que não tinham dinheiro saqueava as próprias
filhas, ou mesmo suas mulheres se lhe interessasse a beleza.
Para mim. que tenho a história na história de meu sangue, o rei do cangaço é o
icone terrível de um valente cabra macho que carrega todo o abuso do sistema
patriarcal.
Embora eu reconheça a riqueza da estética cangaceira, concordo com Adriana
Negreiros, a biógrafa de Maria Bonita: temos que ser responsáveis com a história.
Thais Guimarães. mineira, nascida no Ceará. é poeta e escritora. Tem as
seguintes publicações:- Jogo de Cintura ; - Dez Pretextos para uma noite
de solidão: - Jogo de Facas: - Seis Poemas; - Notas de Viagem: - A
Poetisa (que ganhou 1º LUGAR NA OFF-FLIP/2019) e Uma praça
chamada Liberdade ( escrito em parceria com o poeta Carlos Ávila).
Ganhou um Prêmio Jabuti, em 1988, com o infantojuvenil - Bom Dia, Ana
Maria. E publicou, em abril deste ano. o infantil “Senhor Relógio”, com
ilustrações de Silvana de Menezes.Desde os anos 1980, coordena,
pontualmente. oficinas de escrita para jovens e para professores.
Paralelamente. trabalha no setor do audiovisual, tendo sido coautora do
roteiro do documentário “Cbra Falada”, que mostra como as pessoas com
deficiência visual constroem suas relações com as obras de arte
contemporânea.
» . *
DAS VULVAS DE QUE NASCEM AS POETAS | RENATA PIMENTEL
das vulvas de que nascem as poetas
os figos são flores que crescem para dentro
| comê-los é contaminar-se da modéstia do que não se exibe
mas também não se exime.
os figos não se curvam aos elogios de casaca
| não se rendem às facilidades de toalete plástica
, são orações mudas e implosões de sentidos
as vulvas de que nascem as poetas
não são um conjunto genital de partes externas
são figos
e híbridas searas
podem abrigar um corpo além
é gente que gera
é mulher que não espera
pode ter qualquer genitália
pênis vagina teta cotovelo lingua dedo umbigo orelha dedo
perna
as poetas inventam seus corpos e suas primaveras
PA
Renata Pimentel, graduada em Letras, Mestra e Doutora em Teoria Literária pela
UFPE. Desde 2010 é professora de literatura na Universidade Federal Rural de
Pernambuco (UFRPE). Publicou Uma lavoura de insuspeitos frutos (ed. Annablumme,
São Paulo, 2002): Copi: transgressão e escrita transpormista (ed. Confraria do
Vento, 2011: 2º edição revista e ampliada, 2022): da arte de untar besouros (poesia,
ed. Confraria do Vento. 2012): denso e leve como o voo das árvores (poesia, ed.
Confraria do Vento. 2015); a harmonia secreta do caos, 2022): além de diversos
artigos em vários periódicos. bem como organização e capítulos de livros. Tem
formação também em dança clássica e teatro: atua nas áreas criativas da
dramaturgia em dança contemporânea e artes da cena. escreve dramaturgia para
teatro e roteiro para audiovisual, além de atuar e trabalhar com curadoria e
pesquisa em artes visuais. Foi colunista do JC on line e da Revista e site CutrOs
CríticOs.
Oh
BOMBA D'ÁGUA CORAÇÃO | ARGENTINA CASTRO
Era uma bomba d'água como outra qualquer, não fosse o fato de ter ficado guardada
no coração e na memória afetiva de algumas poucas pessoas, que nela já tinham
colocado as mãos. Ficava na frente da casa, que era separada das demais da rua
apenas por uma cerca de arame farpado. Todas as manhãs, a bomba d'água era
cercada por pessoas de todas as idades, munidas de baldes e bacias. Ao lado da
bomba, uma cacimba que, tantas vezes, era transformada em piscina pelas crianças.
Sim, era lá que as meninas, vestidas apenas de calcinha, davam as mãos e, de três
em três, entravam de um fôlego só e submergiam até o terceiro anel dos canos largos
feito de cimento que, sobrepostos uns sobre os outros, davam largura e
profundidade àquela pequena cacimba. Brincar de mergulhar na cacimba não perdia
nem para a brincadeira de fazer comida de verdade, chamado no bom linguajar
cearense de guisado. O guisado era um treino para que as meninas aprendessem
Logo a fazer comida, enquanto os meninos corriam os quintais, brincando de polícia
e bandido. Mas, voltando ao que eu estava falando, a bomba d'água não era somente
um pedaço de ferro enferrujado, preso a um pedaço de madeira e que, tendo sua
mão- -manivela impulsionada por mãos humanas, trazia a água do fundo da
cacimba para dentro dos baldes e desses para as pias e tinas — uma espécie de bacia
feita com pneus velhos. Aquela bomba d'água era o coração que unia aquela gente. E
o sangue que bombeava suas artérias, seus canos e ferros era formado de água! As
águas do fundo do chão, aquele chão barrento, enlameado. Era essa água que nutria
as panelas, aquecia os alimentos, esfriava filtros e potes depois de ser coada por um
pano branco e Limpo. Banhava os corpos mirrados, matava a sede dos animais —
cavalos, gatos, cachorros, vacas. Fazia sorrir os bebês ainda sem dentes, submersos
até a cintura dentro das bacias-banheiras. Era com ela que as roupas eram lavadas e
ficavam branquinhas a secar no varal de arame farpado. Os tecidos ali, todos
furados, fazendo sombra-dançante sobre o piso vermelho feito de pó xadrez. O café,
ai, o café! O líquido quente e negro a aquecer, melhorar pensamentos e adoçar a
vida. A bomba d'água era uma entidade silenciosa a ouvir as conversas jogadas fora,
a hora das notícias, as fofocas, os risos, as arengas-brigas dos meninos. Meu pai,
bombeiro hidráulico e fazedor de bombas, mas também vaqueiro, antes de tudo.
Minha mãe-indígena, botando água para ferver ou no girau-pia lavando a louça.
Nós, meninas e pequenas, carregávamos baldes cheios e, tantas vezes, maiores que
nosso próprio corpo miúdo. Os baldes cheios que derramavam, nós nos
derramávamos naquela água-líquido-coração-sagrado. Hoje, coluna torta, pés que
doem, alma que chora. A bomba d'água descubro, décadas depois, para compor esse
Livro e encontrar, dentro de mim seu nome, embora não exista mais, compõe a
paisagem de minha casa de sempre, mas feita de ferro e água, enferrujou-se por
completo e, os últimos goles misturaram-se ao sangue que pulsa e dá vida ao meu
coração. Bomba d'água-coração são as minhas poucas, mas fortes, memórias deste
Lugar de onde eu fui e que ainda sou. Sou eu e as meninas da minha infância a nos
banhar naquela cacimba rasa, mas nem por isso menos mágica, menos piscina,
menos mar. O mergulho, os olhos abertos e o sorriso a sorrir borbulhas de confiança
mútua e ali eu já sabia sobre o significado da frase “ninguém solta a mão de
ninguém”. Ali, dentro da cacimba, indo até o fundo, precisávamos confiar umas nas
outras e garantir que o medo não iria nos impedir os mergulhos. De alguma forma,
em meio a tantas ausências, existia alegria. Era a fartura de água fresca em terras
quentes nos mostrando que “perto de muita água, tudo é feliz”. A bomba d água que
pulsa em meu coração também é memória e, se é memória, é não só passado, mas
também presente, a bolinar no que eu sou agora e, agora eu sou afeto e respeito
àquela gente que me formou, cuidou e regou como gente-planta-flor. Se hoje eu sei,
ou talvez não, o que sou, é que não esqueço a origem da água que jorra em meu
peito e que me nutre, me oxigena, me aquece, me Levanta, me hidrata, mata a minha
sede, refresca minha alma, me encoraja, me abençoa, me enlouquece e, também, me
protege. Bomba D'água-Coração é meu pai, a segurar firme a minha mão e me deixar
sem medo. É minha mãe e sua barriga encostada em um fogão, nutrindo nosso
corpo-casa com feijão e farinha. É, ainda, minhas irmãs e meus irmãos. Meu sorriso,
meu choro, minha oração, as histórias de meu pai, o silêncio sábio de minha mãe.
Eu sou aquela bomba de cor cobre-ferrugem, aquela gente. Essa dor que habita meu
coração.
Conto publicado no livro Bomba D'água Coração ( Selo Mirada, 2022)
Argentina Castro - Antropóloga, escritora e produtora cultural com mais de uma
década com experiência em trabalhos de gestão e coordenação de projetos nas
áreas de cultura, educação e inclusão social. Idealizadora e fundadora da
Biblioteca Comunitária Papoco de Ideias na periferia de Fortaleza-CE. Participa
de algumas antologias e publicou em 2022 o livro de Contos Bomba D'água
Coração pelo Selo Mirada onde também é curadora. Membro da coletiva Escritas
Periféricas Elas Poema. Foi uma das selecionadas no Edital Arte como Respiro do
Itaú Cultural (2020).
A ARQUEOLOGIA ONÍRICO-POÉTICO-HOMOERÓTICA NO JOGO
PERFORMÁTICO EM LISA ALVES | ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA
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Tenho um livro de obra de arte em mãos, que se serve a inúmeras performances
artísticas, um misto que se abre como um leque imaginário a nos fazer
refletir/entreter/comover no âmbito do sonho que margeia a realidade, uma
realidade plena de sentidos, porque escolhe a via da arqueologia para comunicar
aos leitores/seres originários, em sua primogênita genealogia, de onde viemos
como seres de desejos e prazeres esquecidos pela maquínica sociedade do
consumo e do caos, desumanizada, a nos dilacerar o contorno dos corpos.
A partir de imagens, obras de arte, inscritas na capa, na contracapa, no marcador
de textos e num cartão postal, que se somam à obra-escrita, como objetos do
onirismo visceral de Lisa Alves, “quando tudo for possível ou uma declaração
(Mirada, 2022), esta segunda expressão escrita em vermelho e riscada em linha
vermelha, a ocultar/revelar o que se esconde nas dobras do texto, “ou uma
declaração”, é uma negação a todos os imperativos categóricos, a toda mancha
vermelha da violência engendrada pelo sistema corrosivo de uma realidade que
teima em se calar, mas Lisa não se cala, nos apresenta um jogo cuja performance
une várias mídias, desde a Literatura, as artes plásticas, e o artefato sonoro, a
partir de um audiobook, em que a voz da poeta Lisa Alves se une aos sons e
labirintos de uma realidade tortuosa, revelando através das avenidas do desejo
mais arcaico, a tessitura de um drama feito de linguagem e corpo, memória e
esg uecimento.
Utilizando como mote a repetição e, ao mesmo tempo, a variedade semântica e
linguística, num sonho pintado com grande beleza e lirismo, sua poesia acende a
chama originária, aquele fogo primitivo que nos embriaga, como o álcool mais
forte na caverna do sonho esquecido, mas resgatado como memória do prazer e do
sensível. As sensações são impactantes em sua poética que grita e sacode o pó dos
antepassados, para nos falar de forma mítica, filosófica e arqueológica de um
fogo originário que nos forjou no delírio do som, do eco, do ruído, numa caverna
lapidada com mesura e maestria por suas imagens originais e reflexões
complexas e profundas, em que duas mulheres se desdobram nas inúmeras
mulheres, silenciadas pelo poder opressor.
Trabalhando um único poema dividido em quatro partes, as estações do ano, sem
seguir a ordem linear e cronológica, Lisa Alves transgride, inverte o natural em
sua dimensão de realidade física, atingindo os relevos dos sonhos, pois esses
como mundos transgressores da lógica opressiva de um universo unilateral, nos
revela o múltiplo em quatro sonhos que atravessam o cotidiano e a trivialidade
da concretude das coisas. Numa diagonal ou transversal de silêncio e som, do
arcaico e contemporâneo, sua poesia funde mundos diferentes, mostrando, dessa
forma, o desejo, a relação homoafetiva, como corte na imago de uma realidade
fria e anêmica, seus versos se vestem de tinta vermelha, dos afetos e das paixões
pelo sensório, mas também pelo pensar-sentir sobre os atos e gestos da vida a
duas, com seus encontros e rupturas, prazeres e dores, paixões e reveses,
alumbramentos e desilusões. Inverter a ordem das Letras é transfigurar a hóstia
da vigília, do acordar no desejo do onírico, que invade as janelas perceptíveis
dos corpos e mentes destes seres que se desdobram na espiral dos versos como
analogias dos mitos fundadores, dos primeiros seres, andróginos, que moldaram
o mundo. Vejamos esses belíssimos versos, do inverno, o primeiro sonho:
“pensar em você é confuso/pensar em você é caminhar na escuridão/pensar em
você é tocar em mãos/que ainda não existem//(ou encarar/uma Llinguagem/sem
palavras)”.
Assim, isso que é imaginativo, o desejo se preenche de belos versos que
caminham pelos trapézios do inaudito. Porque enquanto desejo, o imaginário se
torna mais fértil, antes de sua realização concreta, antes da arquitetura dos corpos
em consubstanciação carnal.O ser que ainda não existe, aquele que trafega nas
ruas do sonho se torna mais belo aos olhos daquela que confabula com o mistério
da polesis. A poesia é o espaço, em que o imaginativo e inventivo transpiram o
oxigênio mais real que a morte, que nos esquarteja os sonhos e os sentidos. O
pulsar da vida e a pulsão do prazer equacionam a movência de seus versos líricos
e plenos dos símbolos da contemporaneidade que mordem as maçãs do ontem,
do mais primitivo e inaugural.
No segundo sonho, a primavera, as imagens perfeitas de duas mulheres, senhoras,
embebidas pelas águas míticas, vêm nos falar de uma escuta. Sua poesia se
apresenta como obra performática, para que o trabalho de escuta, de atenção, se
faça presente, se presentifique no aqui e agora da leitura. Enquanto lemos o
Livro, acompanhado do áudio, perfazemos o itinerário mágico e dramático das
das inúmeras artes que se misturam na sua tessitura híbrida, anfíbia, a desejar o
entrelugar do horizonte, entre o cá e o lá (literatura, artes plásticas, música e
cinema).Litilizando outras línguas, abordando o mito dos povos hispano-
americanos, Lisa Alves ultrapassa a medida humana, o métron de uma
humanidade imperfeita, para vislumbrar o tempo da eternidade, “El tempo no
existe”. Transpassa nosso tempo comum, o cronológico e finito, para atravessar
com sua lança mítica o atemporal, que percorre todas as épocas e que reverbera
como movimento incessante, a roda que gira sem parar. Assim, O movimento
como elemento performático também se mira na sua escada de desejos e sonhos
que vão além da medida, da lógica racional, que nos oprime e escraviza, com um
relógio a nos corroer a expectativa do imemorial e do que não pode ser medido
com uma fita métrica: "Nekhbet, Liadjet/duas mulheres, duas senhoras”. E
arrematando essa seção, nos diz em espanhol: “Miles y miles de mujeres/se
comieran durante diez mil afios”. Aqui, a metáfora arquetípica é combustão
erótica que reverbera como eco no caminhar da humanidade. Aquela arqueologia
animada pelo jogo onírico-poético-homoerótico da performance artística, que
teatraliza em versos o fogo criador do lampejo do poético feito carne, do verbo
transfigurado em arte.
Na terceira parte, O terceiro sonho, verão, cresce, se agiganta cada vez mais essa
performance arqueológica dos sentidos, do prazer em geral, não só o erótico, mas
o que nos cabe enquanto indivíduos no nosso dia a dia, como apresentados por
Freud em sua obra, o tal princípio do prazer, pois tudo que sentidos e tocamos,
ou rejeição. E aqui, também, o vocabulário ou semantismo teatral, o gênero
dramático, costura e consome as labaredas de seus versos magistrais. Vejamos:
“Respeitável público, /o que é que cai e cai e cai e cai?” Nesse momento,
nesse instante-já inaugural, temos o retorno a nossa infância, à curiosidade
da criança em desbravar o mundo com suas viagens pelos mapas
desconhecidos do mundo. A criança sempre está a perguntar, querendo
respostas aos seus enigmas e perguntas inusitadas. A criança sabe falar essa
linguagem dos princípios, na filosofia perene e questionadora dos pequenos.
E Lisa Alves sabe muito bem disso.
À guisa de conclusão, adentramos sua parte mais densa e profunda, a seção
mais Longa da obra hipnótica de Lisa Alves, o quarto sonho, outono, em que o
elemento da melopeia se faz mais presente, para além da imagem e do
conceito, retomando a pedra drummondiana em outro sentido, com sua
própria dicção e tonalidade. O quarto sonho tem um adendo, a expressão, ou
quando tudo for possível”. Expressão essa cortada por uma linha profunda,
demonstrando a ambiguidade de a Linguagem relevar ocultando os sentidos.
O silêncio que vem após o grito, o ruído, a linguagem é ensurdecedora.
Faz-nos mirar a nós mesmos, esse silêncio que é o próprio abismar-se sobre
si mesmo, no processo alguímico do lapidar da pedra mais bruta em som,
movimento, palavra. A própria poesia se criando e recriando belamente pela
urdidura das Letras, sons e ritmos. Numa caverna habitada pelos prazeres das
pedras, das saliências, dos buracos, da superfície das peles à profundeza dos
mais fundos poços, a linguagem aqui encontra seu ritmo mais erógeno,
atingindo as escalas do desejo em gritar e repetir à exaustão, comouna petite
mort que não se cansa em gradativamente crescer como as palavras que se
repetem em diferentes equações e combinações. Vertiginosamente, como um
iluminar imaginário para dentro de uma caverna obscura, os elementos poéticos
se assombram, se espelham, se invertem, se combatem, para, enfim,
eroticamente, se unirem muma ars combinatoria em que os corpos falam a
linguagem da chama ardente do ato sexual, que num crescendo, levam à pergunta
mais ardente: um corpo precisa de outro corpo para existir, a outridade é
possível num mundo cruel, é necessária e urgente a escuta, a comunicação que a
poesia nos oferece através de Lisa Alves, que vem nos brindar com um convite ao
amor entre os seres, que se dividiram por questões de cor, gênero, religião, visão
política, entre outros.
O sentir-pensar-corporificar de Lisa é uma performance de nossa arqueologia
mais humana, o desejo do encontro, da escuta, da combinação entre o eu e o
outro, pois sua existência só tem sentido se existir a outra parte, aquele que se
torne leitor ou espectador, pois a plateia só é possível, assim como o ser só é
possível, mo seu contato, no seu calor, no seu desejo de estar e interagir,
conversar com o outro. E nisso, o Livro de Lisa Alves é perfeito, ao reunir numa só
obra, conhecimentos esquecidos por uma linguagem esquecida”, que se tornou
digital, quando antes era analógica, só para utilizar o conceito do teórico e
psicanalista Erich Fromm. Que esta pérola poética que é o livro de Lisa Alves
encontre aqueles que estejam aptos a essa escuta originária e inaugural. Um Livro
para ser relembrado pelas épocas vindouras e que receba excelentes críticas e
prêmios, porque merece e está à altura de grandes poetas.A pedra, a mineralidade
e aridez que o corte, a ruptura sangra, se converte na beleza do Amor, o Amor que
é a escuta, para dentro de si (o eu) e para fora do eu (o outro), em que o interno e
o externo se tocam pelos acordes do ouvir, do perceber, do auscultar, com atenção
e cuidado, que a Arte de Lisa Alves soube explorar sabiamente e sensivelmente
nessa obra ímpar e singular. A poeta mineira termina primorosamente seu Livro
como um convite à escuta: “meu amor/tentei enviar uma pedra para você/mas o
amor é uma escuta”.
Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. É
Doutora em Literatura Comparada (LIERJ). Trabalha como professora na Secretaria
de Estado de Educação (RJ) e foi tutora de ensino superior a distância na LIFF (8
anos).Tem poemas vertidos para o inglês, espanhol, alemão, italiano, holandês e
chinês. Publicou oito livros de poemas, sendo o mais recente, A mecânica da
palavra (Penalux, 2022).
Lisa Alves (Araxá,1981) é escritora e artista visual. Tem textos publicados em
diversas antologias, revistas, jornais e páginas literárias no Brasil e exterior. Co-
dirigiu os curtas Sou Indesejável (2018) e Depois do Sétimo Dia (2020). Teve
trabalhos de videoarte exibidos em festivais no Brasil e no exterior. É autora de
Arame Farpado (2015, Penalux) e Quando tudo for possível (2022, Mirada).
APURADO DO DIA | GERMANA ACCIOLY
Acordei com um cansaço, carregando comigo a data.
Justiça
Luta
Liberdade
O café da manhã engasgou minha garganta. O pão, o queijo de
todo dia.
No caminho para o trabalho, no Uber, a rádio pregava a
mulher virtuosa. Aquilo quase embrulhou meu estômago.
Quando chego, ainda na catraca, recebi do guarda municipal
um: “Parabéns pelo seu dia”. Respondi delicadamente:
“Obrigada! Dia de lukal”. Esta frase, aliás, não sei quantas
vezes repeti. Para a moça dos serviços gerais, para o
pessoal da portaria, no restaurante do almoço, na academia
de ginástica. Eu queria somente agradecer, mas a resposta
automática é involuntária. “Obrigada, é dia de luta”.
Sento no meu computador e nas redes sociais, os feeds
estão chejos de frases e fotos e vídeos sobre o 8M. “Dia da
mulher é todo dia”, dizem alguns. Quem dera fosse.
7: *
Começa a sessão e as mulheres estão na presidência. Apenas
hoje. É um gesto, eu sei. Avançamos. Faz 490 anos que temos
o direito de votar. Se somar TODAS as vereadoras do Recife
em TODOS os tempos não dá uma legislatura inteira.
Traduzindo: se todas as vereadoras do Recife eleitas em
todos os tempos pudessem se reunir num plenário, não
preencheriam as 34 cadeiras que existem.
Começo a ouvir os discursos das mulheres. Elas falam,
desengasgam as dores, reiteram nossos direitos, expõem as
desigualdades. E os homens, que são maioria no plenário,
olham no celular. Apenas escutam aquela melodia cadenciada
do discurso. Mais um.
De vez em quando entram umas assessoras no gabinete com
umas caixas e perguntam: “quantas mulheres trabalham
aqui?” Eu respondo e recebo em troca sonhos de valsa, em
homenagem ao meu dia. De luta.
No almoço, ganhei do dono do restaurante mais um. Deve ser
pra adoçar o amargo do dia.
No parque 13 de maio, a batucada feminista se ordena pra
sair. Mais um 8M, no país democrático em que as mulheres
têm menos representação na política do que o Afeganistão.
Encontro algumas companheiras e o abraço gratifica,
fortalece, forma rede.
7: *
Chego em casa, cansada, e decido ir à academia de ginástica,
para não perder o ritmo. Na saída, uma das atendentes me
presenteia com um espelhinho de bolso. “Parabéns pelo nosso
dia”, ela me diz com um sorriso aberto. E respondo que nem
um disco arranhado: “Dia de luta”. Venho pra casa pensando
que o espelhinho é até bom. À gente precisa se ver mais,
encarar, olhar nos olhos.
Apurado do dia: cinco sonhos de valsa (poderia ter pego mais,
mas achei que tava bom). Não sei quando foi que o chocolate
virou símbolo do dia, um espelhinho, alguns abraços e a
convicção de que o caminho é longo, mas vale a pena. Pelas
gerações que lutaram para que eu estivesse aqui escrevendo,
pelo meu protagonismo, pelas que virão.
Como diz Clarice, “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não
tem nome”.
Mas há de ter.
Germana Accioly é escritora e jornalista. Publicou “Não é sobre você” (Selo
Mirada, 2021). Escreve no blog Perder de Vista.
JULIANA METRA
a benzedeira
empunhava numa mão a tesoura na outra
o ramalhete de ervas
era a pessoa mais velha mais sábia e mais bonita
que minha pouca idade permitia adivinhar
a calêndula a macela a maçanilha
assim a erva doce
depois de fervidas e coadas
uma xícara basta
para ajudar com a cólica menstrual
se tomada em goles curtos
eu falava de flores mas mudei de assunto
Juliana Meira nasceu em 1981, no interior do Rio Grande do Sul, em
Carazinho. Hoje vive entre Canela/RS e Brasília/DF. Tem publicados,
entre outros, “poema pássaro” (Patuá, 2015), “na língua da manhã
silêncio e sal” (Modelo de Nuvem/Belas Letras, 20177), livro vencedor do
Prêmio Minuano de Literatura na categoria Poesia no ano de 2018, e
"água dura” (Artes Samp; Ecos, 2019). Participa das antologias
“Blasfêmeas: Mulheres de Palavra” (org. Marilia Kubota e Rita Bittencourt,
Casa Verde, 2016), “Treze Mulheres e Um Verão” (org. Bárbara Lia, Feito
no Ato/Psappha, 2018) e “As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira”
(org. Rubens Jardim, Arribaçã Editora, 2021). Integra o livro eletrônico
“Próxima estação: poesia” (org. Élvio Vargas, Instituto Estadual do Livro
do Rio Grande do Sul, 2022). Os poemas acima são do livro Estes que têm
futuro bastante, no prelo pela Editora Bestiário.
LATINOAMERICANA | AMANDA VITAL
ando por aí com meu corpo brasileiro e com a certeza de
que sou muito mais feliz e mais triste que todo o mundo
ando por aí erguendo corpos do solo: os braços. as mãos
são só memória muscular herdada e movida por pura bênção
e quando abro a boca. sei que sou música e silêncio, sou
melodia e ruído, eu falo em ritmo de marcha e em melisma
hoje não tenho carne, fibras ou ossos: tenho sedimentos
intermitentes entre história, continuação e algo a mais
que ficou cá por dizer, por ser desenterrado, mas nunca
eu apenas conheço a liberdade em estado de fogo cruzado
ando por aí com meu corpo brasileiro e com a certeza de
que meu senso de propriedade é fluido. aquoso, mosaical
e tudo me atravessa — fino como flecha, grande como nau
Amanda Vital é assistente editorial da editora Patuá, ombudswoman do
jornal RelevO e co-editora da revista Mallarmargens. Tem bacharelado em
Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais e é mestra
em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa, trabalhando com a
obra poética de Augusto dos Anjos pela editora Ponto de Fuga. de Lisboa.
Autora do livro Passagem (poemas, Patuá. 2018). Participa de antologias
de literatura brasileira contemporânea e tem poemas traduzidos para
inglês, espanhol e catalão. publicados em revistas físicas e impressas.
UMA BREVÍSSIMA EXPOSIÇÃO SOBRE A MULTIPLICIDADE DA
POESIA CONTEMPORÂNEA ESCRITA POR MULHERES NO BRASIL
[Adriane Garcia]
A menos que se vá fazer uma obra ensaística de fôlego, só é possível falar da poesia
contemporânea brasileira escrita por mulheres, nos anos mais recentes, como breve
explanação. Isso porque tal produção é profícua, múltipla em vozes, estilos, temas,
formas e acontece de norte a sul, de Leste a oeste do país. Aqui, tratarei de uma
pequena amostra, citando algumas delas e seus poemas, deixando de fora outra
miríade de poetas e trabalhos, também qualitativos. No trajeto, limitada por
trabalhar com 21 poetas, procurarei, pelo menos, representar todas as regiões
brasileiras, sabendo que a desigualdade dos meios de produção e divulgação
privilegiam algumas regiões, fazendo, por conseguinte, com que conheçamos mais
facilmente os trabalhos de poetas inseridas no eixo sul-sudeste.
É preciso falar em destaque da poesia escrita por mulheres, já que a diferença de
tratamento quanto ao gênero persiste como uma das bases do sistema que gere os
meios de produção. Isso situa a mulher na luta pela inserção e igualdade em todos
os espaços — e não seria diferente no campo Literário, que traz os vícios da
sociedade na qual se insere. Há uma longa história sobre a proibição de as
mulheres poderem ler e escrever e sobre a Luta por esse direito. Publicar é outro
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salto. Não é difícil fazermos um reexame de nossa formação de Leitoras/Leitores nos
anos escolares, principalmente, para constatarmos que tal formação se deu lendo
privilegiadamente homens brancos, de classe média. As vozes enunciadoras eram
essas e tais vozes é que (com raras exceções) falavam sobre a existência, o mundo, a
humanidade. No cânone, poucas escritoras conseguiram a façanha de sair da
margem, sendo que para a mulher negra, indígena e/ou pobre, há uma dupla ou
tripla marginalidade. De certa forma, foi também lendo sobre as mulheres vistas
por homens que nos formamos.
Hoje, cada vez mais, mulheres escrevem, publicam Livros, analisam-nos, estudam-
nos nas academias, nos clubes de Leitura, nos canais de vídeo na internet, levam-
nos para seus espaços de divulgação, muitos deles criados por elas próprias. Com o
so das redes sociais, a divulgação antes limitada aos veículos tradicionais
(geralmente gerenciados por homens) passou a se expandir. A proliferação de
pequenas editoras também impulsionou a publicação de autoras, isso tudo aliado a
Lima consciência cada vez maior, mas ainda incompleta, sobre a importância de não
se alijar o ponto de vista e a criação daquela parte que constitui metade da
humanidade. Nos últimos anos, as mulheres têm conseguido ganhar muitos
prêmios literários, isso quando se nota também a preocupação (e a exigência
manifesta das escritoras) de elas comporem, juntamente com os homens, as
curadorias de festivais, revistas, prêmios.
A seguir, a pequeníssima amostra dessa produção, no gênero poesia, apenas para
exemplificar o que cada leitora ou leitor pode encontrar na poesia brasileira
contemporânea. Para isso, escolhi 21 Livros escritos por mulheres, publicados a
a partir de 2016, sobre os quais apresento uma sinopse e um poema.
Mineira, Líria Porto, em Cadela prateada (ed. Penalux, 2016) constrói um Livro
temático que gravita em torno da Lua. Trabalha versos com sua costumeira fluidez,
criatividade, síntese, erotismo e ironia. Seus poemas são ricos em nuances,
inversões, duplos e triplos sentidos, misturando reflexão e humor. Com grande
capacidade rítmica, causa prazer pela sonoridade, usando as quebras para ampliar o
sentido (inversão, susto ou surpresa). Ao escolher a Lua como metáfora central, Líria
Porto fala sobre a mulher, os relacionamentos, a amamentação, o sexo, a política, a
solidão, a morte e o tempo:
adiamentos
a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã
o sol Lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio
só amanhã
Paranaense, Andréia Carvalho Gavita, em Papel LeopHardo (Mariana Edições,
2016) nos guia por um mundo arcaico que cruza com a pós-modernidade, em um
encontro de mitologias e descobertas tecnológicas, cultura erudita e popular,
termos que pertencem ao ocultismo ou à biologia mais atual, tudo isso numa
espécie de escrita oracular — “decifra-me ou te devoro”. A poeta dialoga com o
Simbolismo e o Barroco, utilizando uma profusão de significantes, em grande
riqueza semântica, estabelecendo um dicionário próprio — porque inusual — mas
que é partilhado de modo arquetípico. Mística, esoterismo, metafísica,
psicanálise, em aproximação com a natureza e a matéria primordial:
“ ainda me chamo pangeia. fermento o ectoplasma randômico no fogão a lenha.
para que o trigo avance pela chaminé e alimente os pássaros com o sonho totêmico
das árvores genealógicas. até que no corpo nutrido da ave, a onomatopeia de um
mito, pandêmico e intacto, suplante o grasnido dos aviões.
Cearense/mineira, Thais Guimarães, em Jogo de facas (ed. Quixote, 2016) realiza
um projeto de inteligência e muita sensibilidade. Esse livro, orgânico, faz a forma
encontrar o tema. Os versos são — o próprio título do Livro já revela — da família
cabralina; sem excessos, o corte se faz com exatidão e faca afiada, ritmo e essência.
Das metáforas da guerra, dos instrumentos perfurantes, tesoura, navalha, gume, a
poeta constrói um Livro que usa de violência e delicadeza para falar das dores do
exastir:
ode à cebola
dentro da casca a casca
guarda outra casca
no espaço
entre lascas
o aço
entre dedos
o cheiro
entre olhos
antigo laço
entre lágrimas
ódio
picado
nas mãos
perícia
paciência
tato
Baiana, Kátia Borges, em O exercício da distração (ed. Penalux, 2017) lança um
olhar para a poesia das coisas, dos objetos, dos nossos atos cotidianos que
conseguem nos distrair da obrigação, da rotina dos relógios. Dividido em três
partes, Como se fosse o órgão vivo”, Fugas extraordinárias ' e “As pequenas
Vilanias da cidade”, olivro se comunica o tempo todo com seu título. A distração,
a inadaptação, o mundo como um não-Lugar para os sensíveis, a violência de um
sistema que desconsidera o lirismo das coisas, máquina do capital a massacrar as
pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e
O amor:
Teu movimento
Antes que te chame
o pelotão de fuzilamento
repara o pássaro
apara o dia.
Há um olhar que se derrama
lento sobre a vigia
e graciosidade no andar
do carcereiro.
Antes, sim, que chamem
o teu mome, anota
num papel ou na parede
certo verso de cimento.
Na argamassa firme
teu movimento.
Catarinense, Isadora Kriegger, em Explorações cardiomitológicas (Editora da
Casa, 2018) faz uma viagem no coração e no inconsciente, as “compensações
oníricas”. É das próprias saudades, encontros e despedidas dessa pessoa-lírica que
os poemas vão se constituir, podendo ser lidos como partes de um poema único. O
livro é uma carta de amor aos seus e à pessoa desconhecida que a lerá
(Leitora/leitor), mas que foi escrita sem se pensar no destinatário, para melhor
ouvir o remetente. Para além dos sentimentos, a poeta também está dizendo de
uma ética do encontro e da coexistência, não só entre seres humanos, mas entre ser
humano, pedra, pássaro, floresta:
“tento colocar entre nós o espelho duplo deus/ humano
tento mostrar que os afrescos nos pertencem mutuamente
os murais estarem divididos não significa que as crianças, o bosque, a ponte, as
árvores [floridas sejam realidades apenas tuas. não significa que as serpentes, o
Lodo, a lua, os [peixes escuros sejam realidades apenas minhas.
mas para alguém que escreve tantas derivações da palavra tentativa”, e para alguém
que [ignora todas as formas que tal palavra toma mesmo debaixo de escombros, não
haveria [outro destino além do fracasso:
continuamos sentados um de costas para o outro."
Paraibana, Débora Gil Pantaleão, em Objeto ar (ed. Escalera, 2018) estabelece um
diálogo com o Livro Lima aprendizagem ou o Livro dos prazeres, de Clarice Lispector.
Os versos buscam o inefável, o impalpável, na busca existencial pelo sentido e pelo
não-sentido da vida. Assim como no livro de Clarice, predominam um senso
panteísta e o paradoxo tudo-nada, que também pode não ser paradoxo, mas a
integração de algo Lino. Objeto ar nos diz dos relacionamentos, da tentativa de
vivenciar o amor, em uma poesia feita ora de silêncios e versos curtos, ora de fluxos
narrativos e associações de pensamentos que dão em uma logopeia inusitada:
corpo sonho
4
Paulista, Ellen Maria, em Gravidade (ed. Patuá, 2018) dá à luz um livro sobre
gravidez, parto, nascimento, corpo feminino, morte e herança matriarcal. Em versos
que nada desperdiçam, a poeta consegue emocionar, reconstruindo um universo
amoroso e dolorido sobre cuidar e ser mulher, mãe de outra mulher, avó de uma
mulher, neta, filha. Um Livro sobre afetos que coloca no centro de suas questões a
aprendizagem do feminino e seus questionamentos, a aquisição dos
conhecimentos de sobrevivência e a aquisição da própria língua, que é materna:
antes do mar
vem mãe
depois do ponto final
letra maiúscula
ela que é sábia
de seu Lugar observa
a escrita das pedras que acabo de cruzar
a partir daí, filha
o Livro é teu
Pernambucana, Cida Pedrosa, em Solo para vialejo (ed. CEPE, 2019) elabora uma
narrativa épica e lírica em que a procura das origens se constitui no leitmotiv da
obra. Por meio de uma espécie de história musical afetiva, Cida Pedrosa reconstrói
o Lugar e suas gentes — Bodocó, Sertão do Araripe, Pernambuco, Brasil, as Américas
— mas não buscando aquilo que é oficial, e sim o que foi silenciado diante do
racismo, do machismo, da exclusão. É a procura do ser negro (representando
também o ser indígena, o ser pobre e o ser mulher) que guiará o poema, um poema
solo, que se utiliza de vários recursos formais da poesia, inclusive do poema
visual, sem se prender a nenhum deles:
quase todos os filhos de bodocó vieram ao
mundo pelas mãos de mãe hermínia parteira
de ofício senhora de muitos saberes e sempre
a postos para a Luz quando a parturiente residia
Longe montava de Lado no Lombo de um animal
ou era transportada por dois homens em uma
rede sempre acudia às mulheres nessa hora de
solidão coragem e fé suas mãos além de darem a
vida tocavam a música das missas domingueiras
em uma serafina de dois pedais e teclas de
marfim comprada as sLias próprias expensas
Amazonense, Wanda Monteiro, em A Liturgia do tempo e outros silêncios (ed.
Patuá, 2019) reflete sobre o absurdo da impermanência. A ilusão é descortinada. O
tempo é e não é, “mera percepção mental — flutuante”, porém a percepção é a de
que se nasce, envelhece e morre. Wanda Monteiro apresenta o tempo como chão
móvel onde colocamos nossos pés; chão inseguro, vertiginoso, percebido por
enganosos sentidos. De tempo, avança para espaço. Nada em nós é confiável para
definições. Lim livro que pensa filosoficamente a condição humana e a busca
existencial em meio à efemeridade, às limitações da memória, enquanto tenta se
salvar na linguagem:
o tempo fala ao teu ouvido
pa lavra-precipício
rasga teu pensamento ao meio
abre fina fenda
funda — escura
tira-te o fôlego
faz tua boca escassa de voz
podes ouvir os passos das palavras em fuga
o ranger de seus ossos ferindo o deserto do teu peito
é tudo tão silêncio em teu chão
e tu não sabes que (6) poema morreu
Mineira, Nívea Sabino, em Interiorana (edição própria, 2º edição, 2019) constrói
uma poesia que escancara a discriminação social, racial, de gênero, mas também
fala da busca de um sentido existencial. Nívea Sabino é slamer; a poesia falada,
Wu FZ . . . Wu . .
aquela que “não vive presa na livraria” certamente trouxe para o livro muitas de
suas características, fincadas na oralidade. Na preocupação estética com a palavra
escrita, que se verifica nos seus muitos jogos silábicos/semânticos ou na forma
visual em que o poema habita a página, a poeta oferece um livro bonito e que
emociona:
MELI TRAÇO
Falar sobre mim
é de uma imensidão
sem rastro
Transito
me acho
No infinito
do que me permito
do que eu faço
Não minto
disfarço
Caminho
neste mundo vasto
de encontros
de acasos
Profundo acaso
ou destino
do meu passo
no sem Lugar
para o qual
eu me laço
Mato-grossense, Ryane Leão, em Jamais peço desculpas por me derramar (ed.
Planeta, 2019) realiza uma poesia de celebração da mulher negra, ressaltando que a
dor não é a única faceta dessa experiência de estar no mundo, apesar de muito
presente. Com as marcas da poesia falada, cujo ritmo trazem sua vivência de slamer,
Ryane Leão convoca outras mulheres a se verem com bons olhos, escreve numa
escrita solidária, que busca a sabedoria das ancestrais e a transmissão do
conhecimento que se vai adquirindo no próprio viver para falar com as demais. Um
Livro sobre a difícil tarefa de viver, mas que exalta a força e a beleza que há nessa
tarefa.
celebre a mulher
que você está se tornando
não tape os ouvidos
ela está te chamando
ela dança com o fogo
ela é pancada mas também é doce
ela sempre foi sua melhor escolha
ela é tudo aquilo
que sobrevivel
Gaúcha, Ana Santos, em Fabulário (ed. Confraria do Vento, 2019) se utiliza das
memórias de infância, construindo um museu de Lembranças, em que as peças
voláteis denotam tragédia e mágica. Habilmente, procura o elo entre presente e
passado, tocando em pontos comuns da memória coletiva, valores, sentimentos,
sensações e estabelecendo, pela identificação, um diálogo com a leitora/o leitor.
Ana Santos sublinha a importância da memória como aquilo que nos constitui
primordialmente, salvando-se, com a palavra, do risco do apagamento que a todo
tempo nos lembra a morte:
ACALANTO
Dorme, filhinho.
Velo o que sonhas
dentro da noite.
Do mal da vida,
mamãe não pode
mais te salvar.
Capixaba, Fabíola Mazzini, em Rotina dos ossos (ed. Cousa, 2020) constrói uma
coletânea de poemas que abriga temas diversos, das tragédias sociais ao
sentimento individual de solidão, da condição feminina às frustrações por não
resolver os problemas do mundo. Muito evocado, o amor surge como solução
ausente, pois o medo é a força paralisante que toma conta dos seres humanos. Em
versos muito bonitos, não raro com cenário de mar, a poeta leva a leitora/o Leitor a
refletir sobre a rotina de sermos quem somos, sobre a passagem fugaz do ser na
Terra, pó que retorna ao pó”, ossos:
Não é o relógio que te acorda
Não se dorme mais 8 horas por noite
Os sonhos são esquecidos a cada manhã
Todo mundo rouba o tempo do outro
Ela vigia o olhar do amado a cada crepúsculo
A vigília é um caracol em seu labirinto
O tempo gruda no corpo que queria mais da vida
É nossa anatomia, pedra e abismo
Somos o homem que morre
Pensando que fugiu da cela
Que já Lhe habita o osso
Amazonense, Márcia Wayna Kambeba, em Saberes da floresta (ed. Jandaíra, 2020),
(ed. Jandaíra, 2020), (ed. Jandaíra, 2020), compõe seus poemas entre reflexões que
registram sua história pessoal e parte da história coletiva de seu povo, os
omágua/kambeba. Em um país que já teve milhares de línguas indígenas e hoje
registra menos de duas centenas, a sobrevivência deste Legado é uma das maiores
provas de resistência dos povos originários contra o apagamento e a extinção de
seus corpos e cultura. A poeta cria poemas nos quais a floresta encontra um espaço
para falar, em versos que se utilizam de rimas, incluindo palavras do vocabulário
omágua/kambeba, destacando uma relação de orgulho e pertencimento étnico:
Voa pajé, renasce payé,
Rodopia aguçando a visão
Dança com o maracá da união
O saber que vem dos espíritos.
Da cuia o som vai brotar
Anunciando os guerreiros Tupinambá
Em seu canto invocavam O povo Maracá
Dizimados um dia, como espíritos vão falar:
Sany! Curmyssa aua Maracá,
Tana may sangara sany indá SUPY sapukatara!
Hei pajé! Iawaxima aua sUPy curata caiçuma.
Mineira, Ana Elisa Ribeiro, em Dicionários de imprecisões (ed. Impressões de
Minas, 2º ed., 2020) constrói poemas como verbetes poéticos, escrevendo um
dicionário afetivo, onde cabem diversos temas e reflexões: do amor à política, do
machismo ao exercício da escrita. A poeta/linguista traz para esse dicionário sua
atenção para a palavra em si, para seus significados, ao mesmo tempo que nos
apresenta um formato de poema lúdico, brincando de ser outra coisa, falando sério
com humor:
Filho
Substantivo, aqui masculino e sujeito a plural
1. Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém.
2. Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica
de seus pais e nasce das entranhas da mulher.
3. Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas
dispostas ao amor.
4. Diz-se daquele que provê céus e infernos a outrem.
5. É extremamente comum que tenha como mãe uma puta.
6. É também comum que não sejam mesmo putas suas maes.
7. Os pais escapam a essas acusações.
8. Os dicionários não podem definir essas relações
satisfatoriamente.
Cearense, Jarid Arraes, em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (ed.
Companhia das Letras, 2020) compõe 15 cordéis, cada um dedicado a uma heroína
negra: escritoras, abolicionistas, fundadoras de quilombos, guerreiras pela
liberdade, políticas, professoras, mulheres que se rebelaram frente ao machismo,
ao racismo e à escravidão, servindo de exemplo revolucionário para as demais. Lim
Livro delicioso de Ler, embalado pelo ritmo arredondado dos cordéis e pela riqueza
que uniu oralidade e pesquisa contra o silenciamento da história das mulheres.
Aqui, coloco um excerto do cordel Antonieta de Barros:
Por seu grande caráter
Era muito admirada
Pelos seus jovens alunos
Ela era celebrada
Porque era obstinada
Coerente e respeitada.
Já na década de trinta
Se juntou ao movimento
Por Progresso Feminino
Exigido no momento
Era a FBPF
Com que teve envolvimento.
Conto ainda mais um fato
Que ela protagonizou
E marcou a nossa história
Como Líder de valor
Pois abriu mais uma porta
Antonieta se tornou
A primeira do estado
Como assim se registrou
E foi a primeira negra
Que o país efetivou.
Alagoana, Natália Agra, em Noite-de São João (Corsário Satã, 2020) faz acordar
uma pergunta da infância: para onde é que as pessoas vão depois que morrem? Os
poemas são criados a partir de lembranças e deslembranças, de alegrias e tragédias
familiares, daquilo que o fogo queima para atiçar e daquilo que queima para dar
fim. Neste livro, a poeta trabalha temas universais como a saudade, a finitude, a
memória, o esquecimento e a identidade construída com aqueles com os quais
convivemos um dia:
EVOCAÇÃO
Para o tio Jonas que, assim como São Francisco, foi um grande protetor dos animais
(in memoriam)
alguém
dizia: “pula a fogueira!”
no fim da tarde
fechava-se a ciranda
ainda respiro
aquele contorno cigano
como vapor na chaleira
espeto o milho na brasa
deixo que ardam nos olhos
os últimos anos felizes da família
mesmo que nunca sobrevivam à fumaça
sempre que retorno
encontro as janelas cobertas
o jardim vazio, as festas submersas
no esquecimento
de novo a criança soluça
o silêncio absoluto da navalha
Pernambucana, Micheliny Verunschk, em O movimento dos pássaros (ed. Martelo,
2020) compõe um Livro temático a partir do tema/vocábulo “pássaro”. Com grande
capacidade lírica, utiliza a palavra temática como mote metalinguístico, além de
construir, a partir dela, reflexões de uma rica logopeia, que vai do poemna/pássaro
para o cotidiano, a memória, a condição humana e suas dores, as tragédias sociais
(no país e no mundo), a morte, o amor. O movimento dos pássaros é profícuo em
imagens e utiliza versos atravessados por elementos da natureza. O resultado é um
Livro bonito, escrito por uma poeta com grande domínio de ritmo, com grande
domínio da Linguagem poética como um todo, capaz não só de se expressar, mas de
comunicar a sua palavra:
sobre armadilhas
meu pé esquerdo lateja
um coração que bate
descompassado
dentro do meu calcanhar
um coração de ossos
com um pequeno pássaro
sangrante e dolorido no seu centro
um coração deslocado
ataviado por uma rede de nervos
que reverbera um nome.
meu pé esquerdo lateja
poderia ser um reino ou uma estrela.
a cidade, pouso para pássaros precários.
Norte-rio-grandense, Regina Azevedo, em Lança-chamas (ed. Peirópolis, 2021)
faz uso de versos na maioria das vezes curtos, livres, usando o mínimo de
pontuação, Regina Azevedo constrói uma poesia Limpa e objetiva, sem qualquer
intenção de ornamento, fiel à proposta temática dos poemas. É exatamente por isso
que pode nos surpreender com um verso que parece ter saído, de repente, de uma
associação livre. É justamente por saber dosar as figuras de linguagem, que Regina
Azevedo consegue dar “rasteiras” em quem está lendo. Com encadeamentos que
usam um tom prosaico, por vezes Regina Azevedo interrompe o fluxo com a inserção
de um assunto que parece estar deslocado, mas que registra o trânsito de vivências
e informações que nos assombram e atravessam:
festejo ao fogo
só por um segundo
sob teu peito
o farfalhar do outono
e o que você fazia
em festejo ao fogo
a ponta dos dedos
ao relento
traquejo singular da Labareda
misto de calmaria e lampejo
numa dança descabelada
a língua pronta para O surgimento
da manhã
o espírito de cavalo colorido
no ato de trocar os óculos com você
e te olhar de baixo
o minério que dorme na pele
o desafio que doma o segundo
a ginga que derrete as ondas
cheiro tônico diante do espelho
o rugido e o anúncio
do tropeço no ritual:
LM orgasmo estupendo
anestesia contra as bombas
de efeito moral
Paulista, Michaela Schmaedel, em Paisagens inclinadas (ed. 7 Letras, 2022)
realiza uma poesia de concisão, marcada por grandes imagens. De olhar aguçado e
sensibilidade apurada, a poeta dá conta, em poemas e versos curtos, de comunicar
ideias de integração do todo utilizando paisagens, seres e suas interações com o
mundo subjetivo da persona-lírica. Também comparecem com frequência o amor e
uma certa aceitação do inevitável, um tom melancólico convive com uma sabedoria
de Luta. Paisagens inclinadas traz poemas de alta carga filosófica. Com uma poesia
“cênica”, fotográfica”, esse Livro revela um trabalho de sintaxe e temática de pleno
domínio e voz marcante:
Solidão
A semente selvagem
denominador comum
das ilusões que vagam
nas grandes cidades.
Entre arranha-céus
uma gaivota gira
fantasmagórica
na noite de verão.
Olhar para cima
é o que se faz
enquanto nos arrancam
fo) coração.
Mineira, Silvana Guimarães, em O corpo inútil (no prelo) organiza uma
antologia que reúne grande parte de seus poemas, escritos ao longo das duas
últimas décadas, sendo a maioria a partir de 2012. O corpo inútil trabalha temas
como saudade, amor, política, desigualdade social, relações de mãe e filha, morte,
a condição feminina e a violência contra a mulher. Silvana Guimarães utiliza ora
um tom confessional, ora um tom narrativo e exterior cheio de humor, ironia e
profundidade. Seu olhar para cenas cotidianas ilumina aspectos de afetividade,
tragédia e lirismo;
Mamuskas
a trisavó cresceu com a mania de recolher nuncas
a bisavó passou a vida colecionando nãos
a avó, entre rezas, reunia quimeras
a mãe empilhava lamúrias
ela habituou-se aos muros
a filha junta janelas
a neta, pássaros
Dessa breve demonstração, podemos concluir pela multiplicidade de temas e por
uma heterogeneidade estilística, com tendência ao verso curto. Com exceção das
autoras Ryane Leão e Jarid Arrraes, as poetas aqui citadas têm seus trabalhos no
gênero publicados em tiragens menores, por pequenas e médias editoras. Como
bem nos explica a pesquisadora Regina Dalcastagnê em seu livro Literatura
brasileira contemporânea: um território contestado (ed. Horizonte, 2012), a
ampliação dos espaços de publicação não implica, necessariamente, que todos os
espaços tenham a mesma valoração, mas são importantes quando “o que está em
jogo é a possibilidade de dizer sobre si e sobre o mundo, de se fazer visível dentro
dele”. Essa visibilidade frequenta um sistema de hierarquias que para ser
modificado requer consciência sobre sua existência e luta contínua para
democratizá-lo. Assim como, de modo geral, é preciso democratizar o acesso à
Leitura, por meio de políticas públicas.
Com os avanços dos movimentos políticos e sociais Ligados às minorias, como o
Movimento Negro, o Feminismo, os movimentos LGBTQ+, os movimentos por
moradias ou os movimentos ligados a pessoas com necessidades especiais, alguns
conceitos têm sido modificados e, com eles, nosso modo de ler. Desconfiamos
mais, não temos dúvidas de que a Literatura também é um campo de poder; não
cremos mais tão cegamente naquilo que foi consagrado. Somos outras leitoras,
outros leitores, mais inclusivas (os), com uma maior abertura para outras vozes que
falam, traços de vivências particulares e cultura imaterial de grupos que ainda não
vieram compor nossa percepção. Esse movimento ainda é marginal (e aqui dizemos
marginal em oposição a central), mas precisa se equalizar, até o momento em que
não precisemos mais de um adjetivo para colocar após a palavra literatura, pois a
inserção de várias vozes se tornou “natural”.
Precisamos lutar por um mundo comum. Hannah Arendt nos diz em A condição
humana (ed. Forense Universitária, 2001) que “O mundo comum acaba quando é
visto somente sob um aspecto e só se lhe permite uma perspectiva. A poesia
escrita por mulheres traz outras vozes enunciadoras, desautomatiza a linguagem e a
experiência de subalternização a que as mulheres foram relegadas e contra a qual
sempre lutaram, registra subjetividades dos vários espaços de origem e
experiências e cumpre um papel social de ruptura, quando instala o ponto de vista
silenciado, quando enfrenta o papel que lhe foi atribuído — no mundo privado — e
vai à esfera pública construir páginas desta arte e deste saber coletivo chamado
Literatura.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O
nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento,
2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux,
2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemáória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019),
Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você
(Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé (Caos e Letras, 2023)
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DE ADRIANE GARCIA (CAOS E LETRAS, 2023) á
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A METÁFORA DE AGAR
Tudo são metáforas, Agar
Menos a servidão e o fato de possuir um útero
Antes ainda, mulher, ser um
Vaso onde jogar sementes com a graça de deus
É metáfora. Viver longe das gentes suas, egípcia
Entre as propriedades desta mulher que não pode rir
Pois parece estéril havendo um senhor sobre ela
Mas que tem uma serva
E você, Agar, a serva oferecida nesta noite
Em que este homem a possui no breu que se prolonga
+
Enquanto a mulher que não pode rir chora
E você tenta limpar o que lhe escorre entre as pernas
Ah, tudo são metáforas, querida Agar
Até este colo que ofereço para diminuir a sua dor
PD o *
Eu que só tenho palavras enquanto sua barriga cresce
E você foge daquele homem e da mulher que não pode rir
Uma fuga pelo deserto, mas qual deserto agora, Agar?
Finalmente você encontra uma fonte de água
Porém, o deus que tudo vê não dá descanso
E no seu encalço há um batalhão de anjos treinados
Em busca, recuperação de servas, restituição de filhos
E você nem para se sentir lisonjeada
Tudo metáfora, você volta escoltada-e em silêncio
E frente a frente: você e a mulher que não pode rir
Quatorze anos; vocês em vão, olhando para o menino
Tentando conviver sem se lembrar do breu daquela noite
Que habitou em Sara, que habitou em você, mesmo depois
Que recebeu do homem parca pensão alimentícia:
Pão, um odre de água e um deserto. Tudo são metáforas
Mas onde é que encaixamos o estupro?
LA METÁFORA DE AGAR
Todo es una metáfora, Agar
Menos la.servidumbre y el hecho de poseer un útero
Aun antes, mujer, ser una
Vasija donde arrojar simientes con la gracia de dios
Es metáfora. Vivir lejos de tu gente, egipcia
Entre las propiedades de esta mujer que no puede reír
Pues parece estéril habiendo un sefior sobre ella
Pero que tiene una sierva
Eres tú, Agar, la sierva ofrecida esta noche
En que este hombre la posee en la oscuridad que se prolonga
Mientras la mujer que no puede reiír llora
Y tú intentas limpiar lo que te escurre de entre las piernas
Ah, todo es una metáfora, querida Agar
Aun este regazo que ofrezco para disminuir tu dolor
7 = *
Yo que solo tengo palabras mientras tu vientre crece
Y huyes de aquel hombre y de la mujer que no puede reiír
Una huida por el desierto, pero ;qué desierto ahora, Agar?
Finalmente encuentras una fuente de agua
Sin embargo, el dios que todo lo ve no da descanso
Y tras tu rastro hay un batallón de ángeles adiestrados
En la búsqueda, recuperación de siervas, restitución de hijos
Y tú ni para sentirte lisonjeada
Todo metáfora, vuelves escoltada y en silencio
Y frente a frente: tú y la mujer que no puede reír
Catorce afios, ustedes en vano, mirando al nifio
Intentando convivir sin recordar la oscuridad de aquella noche
Que habitó en Sara, que habitó en ti, aun después
Que recibió'del hombre parca pensión alimenticia:
Pan, un odre de agua y un desierto. Todo es una metáfora
éPero dónde encaja la violación?
A DESCOBERTA DA MULHER ENCURVADA
Coloque o peso do mundo sobre os ombros dela
Prontifique os olhos de todos para o seu julgamento
Profira, quando ela nasce: é mulher
Sentencie (com decepção e desprezo)
“Lembre-se: você aceitou destruir, mostre
Que ela só deve olhar para baixo
Separe um lugar para os homens
E outro, bem atrás, para ela
Não diga a ela que o mundo é doente
Diga que ela está possessa de uma enfermidade
' Eduque-a para ser silenciosa, concha
Mande-a cobrir com um véu a cabeça
Foda a primeira vértebra
Depois a segunda a terceira e a quarta
Até toda a coluna estar fundida
À ponto de, corcunda, não olhar mais para o céu
Mas cuidado, pode ser que ela leia o chão
E aprenda que não se nasce encurvada,
7 wu *
Torna-se
E que da carcaça, já vi, ela se erga:
Bruxa
No seu próprio templo
De ato e de vontade.
EL DESCUBRIMIENTO DE LA MUJER ENCORVADA
Coloca el peso del mundo sobre los hombros de ella
Ofrece los ojos de todos para su juicio
Profiere cuando nazca: es mujer
Sentencia (con decepción y desprecio)
Recuerda: tú aceptaste destruir, muestra
“Que ella solo debe mirar hacia abajo
Separa un lugar para los hombres
Y otro, bien atrás, para ella
No le digas que el mundo está enfermo
Dile que ella está poseída por una enfermedad
Edúcala para ser silenciosa, valva
Mándala cubrirse la cabeza con un velo
À la mierda la primera vértebra
Después la Segunda la tercera y la cuarta
Hasta que toda la columna esté fundida
Al punto de, jorobada, no mirar más hacia el cielo
Pero cuidado, puede ser que ella lea el suelo
Y aprenda que no se nace encorvada,
PD o *“
Una se torna
Y que de la carcasa, ya lo vi, ella se yerga:
Hechicera
En tu propio templo
De acto y de voluntad.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Meio Publicou Fábulas para
adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O
nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento,
2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux,
2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019),
Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você
(Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé (Caos e Letras, 2023)
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LUTA CRUZ
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